Ed. Husserl não apresenta aqui um ’manifesto’ da fenomenologia, mas antes um panorama sintético do seu trabalho filosófico até então desenvolvido. As Conferências de Paris, pronunciadas na Sorbona, a convite da Académie Française, a 23 e 25 de Fevereiro de 1929, expõem, de facto, as linhas mestras da sua reflexão fenomenológica. São, por um lado, um tributo a Descartes, que ajudou o autor a chegar à sua descoberta da transcendentalidade do ego; e, por outro, ofereceram-lhe a ocasião para assinalar as diferenças relativamente ao sistema cartesiano, que não seguiu até ao fim o ímpeto inovador que o inspirava e movia. Traduzem um radicalismo semelhante: nada mais nada menos do que instaurar um começo absoluto da filosofia, em vista da unidade universal das ciências. Palpita nelas um impulso, de certo modo, espiritual, pois se busca a plena responsabilidade do filosofar na demanda de uma sabedoria universal, no abandono de todos os conhecimentos pressupostos e garantidos, na indagação das evidências derradeiras, as quais servirão, depois, para a fundamentação do sistema de saberes e dos valores, além da instituição e do pressuposto de uma comunidade noética de empenhamento veritativo. Por isso, os grandes temas husserlianos vão assomando, à medida que o discurso avança: a epoché ou a suspensão da atitude natural perante o mundo, a redução fenomenológica, a intencionalidade da consciência, a relação com o mundo e o significado deste, a questão do solipsismo, o difícil problema da intersubjectividade e muitos outros. O texto presente é uma espécie de corte transversal na obra de Husserl até então realizada: vemos os temas, o seu esforço por uni-los, os espinhosos problemas que surgem em virtude da solução proposta, as virtualidades que se insinuam... Estes e outros aspectos traçam um perfil excepcional de um pensamento em acção, sempre aquém da promessa que o anima, mas lucidamente mergulhado numa intenção de rigor e de profunda honestidade intelectual.

