Nada além conta a história de Moço, um personagem sem nome, sem cor e sem rosto. Cansado de sua vida sem significado, ele foge de sua vida para conhecer o mundo que sempre soube apenas através dos livros.
Nada além -
Petrus Evelyn
Uma resenha de Nada Além
O livro Nada Além, de Petrus Evelyn, oferece aos leitores uma história com elementos fantásticos, que mesclam narrativas em primeira e terceira pessoa. O texto traz, ainda, recursos como poesia, teatro, cartas e diversos estilos para descrever as aventuras de um moço, cujo nome e outros detalhes não são moldados: é apenas conhecido como Moço. E isso basta para a história de um garoto que procura se aventurar pelo mundo, saindo da zona de conforto de seu quarto, sua família, seus livros. E caminha a esmo, sem bússola a não ser a do autor. Moço é insípido, incolor, inodoro. Uma personagem criada para caminhar por cidades fundadas em pré-conceitos religiosos, maniqueísmos, inquietações políticas e embates entre visões. É uma personagem aberta à imaginação: ele surge – metaforicamente, segundo esta análise – como um bonequinho de palitinho, feito para ser adornado com a imaginação do leitor. Ou seja: coloca-se a roupagem nele que desejar. A narrativa é pincelada por interrupções do autor pra explicar o motivo das escolhas e caminhos seguidos pela personagem. Moço, apesar de ter sido criado para buscar seu eu, fica refém de seu criador, que vira e mexe pontua suas observações pessoais, suas inquietações frentes a escrita do livro e, por fim, questiona-se veladamente o que o leitor vai pensar da história. A grosso modo, a forma como se dá a inclusão do autor nas páginas do livro é semelhante – em termos de estrutura – que Saint Exupéry faz com O Pequeno Príncipe. O problema é que falta um pouco mais de sutileza. Ele narra os acontecimentos e pontua suas observações. Uma mescla de liberdade não liberal: essas inserções freiam a narrativa. Ou o leitor se preocupa com a personagem ou com as inquietações do autor. O texto, apesar da fluência, de permitir o fluxo da leitura de maneira interrupta, deixa a desejar na descrição mais detalhadas das cenas. As inquietações, ideias, preconceitos e questionamentos da personagem são o palco do livro. Não há uma preocupação com o cenário literário: o que está em jogo é o discurso da busca de um eu perdido. É um monólogo sem ser monólogo. É um texto que se ampara mais nas ideias e conceitos carregados pela mente da personagem – e às vezes do autor. Seria mais adequado o “floreamento” das cenas, a oportunidade de recheá-las de mínimos detalhes, apenas dando a deixa para o leitor imaginar. Entretanto é uma obra original, criativa. Oferece ao leitor um emaranhado de situações e provações da personagem. Embute, em suas palavras, um ambiente fantasioso, onde as cidades, rios, pedras e árvores surgem do nada. As personagens secundárias, com seu amor, seu ódio, sua hipocrisia, enfim, seu jeito humano-literários de ser, surgem à deriva na história, enroscadas com as cidades da qual integram o cenário. São servas das cidades. Ou melhor, peças que surgem no horizonte ficcional, ilustradas de forma a oferecerem caminhos e perspectivas para Moço, uma personagem em busca de suas verdades. Que talvez não existam e ficam Nada Além de suas inquietações.
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