Baixo Calão conta a história de Johnny, narrador do livro, que leva uma vida infernal entre sua companheira, a combativa Exa Torrente, e a amiga de todas as horas, que ele chama de sua Tarazinha. Essa, por sinal, é a mulher de seu irmão adotivo Julien. Johnny também estabelece uma relação com Pope, garçonete naquele tipo de bar onde o pessoal do sexo feminino se agita e roça na frente dos clientes. Enquanto ocorrem esses encontros e desencontros, Johnny mantém um diário. O que conta o autor desses escritos, em quem Johnny vê um outro ele mesmo, é uma vida comparável à sua, à de Exa, de Tarazinha, de Julien, de Pope... E ninguém ficaria surpreso se essas duas histórias acabassem por se entrelaçar.
Baixo Calão (Latitude) -
Rejean Ducharme
Edições (1)
Ver maisPoético, mas bem complexo e arrastado
Cansado das narrativas convencionais? De leituras fáceis e rapidinhas? Seus problemas acabaram! Gozações à parte, Baixo Calão é uma leitura, digamos, peculiar. Tudo é visto através dos olhos de Johnny, que parece debochar do amor, desconstruindo-o à medida que ele mesmo parece se decompor. Vazio. Tudo se situa entre o afeto e o desespero, uma viagem contínua entre extremos. Vivendo no limite, os personagens demonstram, através de golpes físicos e psicológicos, o desespero de amar e o autodesprezo. A atmosfera é pessimista; os amores, errantes e fadados ao fracasso. A narrativa confunde ao nos transportar brutalmente de uma situação a outra. Os lugares são outros sem que o leitor seja previamente avisado. Muitas vezes, é difícil identificar de qual personagem vêm determinadas falas, ou mesmo a quem o narrador está se referindo. A falta da sensação de “começo, meio e fim” bem definidos deixa a impressão de que nada acontece, nunca. Complicação extra: o narrador lê, em um manuscrito encontrado por acaso, uma história que se parece estranhamente com a sua, que se mescla a ela, inclusive. Complicação extra #2: a ausência de capítulos torna o texto cansativo e exige uma leitura continuada, sem pausas muito longas. (Então, nada de esquecer o livro largado durante uns dias e depois querer retomar a leitura!) LEIA PORQUE... Apesar desses pontos de confusão, a narrativa é poética. A junção do linguajar baixo e das doses altíssimas de – mais uma vez – desespero dá origem a frases sonoras, muitas vezes com rimas. Por ser tão visceral e também introspectivo, o texto tem seus atrativos para quem gosta dessas características. Além disso, o autor, o quebequense ou québécois (em francês fica mais charmoso!) Réjean Ducharme, é conceituadíssimo. Conheceu o sucesso desde o início de sua carreira, mas, curiosamente, leva uma vida reclusa há algumas décadas (não concede entrevistas nem faz aparições públicas). DA EXPERIÊNCIA... Baixo Calão foi uma leitura complexa, demorei mais tempo que o habitual para concluí-la. A densidade do texto e as complicaçõezinhas dele (sem esquecer as “complicações extra”!) fazem com que eu indique o livro apenas ao leitor que tiver curiosidade de ler algo do Ducharme. Ok, até é interessante pela intensidade do texto, mas nada que você não consiga passar sem. FEZ PENSAR EM... Neve. E mais um punhado de coisas depressivas. Amor passado do ponto, cujo lirismo murchou, apodreceu. Uma música do Legião Urbana, não lembro qual. Leia mais em: LivroLab.blogspot.com
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