Os dias se estendiam difíceis no pobre reino onde Shuna vivia, comida e demais recursos eram escassos, e a natureza era dura. Apesar da vida materialmente seca, as pessoas daquela região seguiam livres e gentis, o amor ao próximo não havia sido completamente esquecido, e Shuna dá mostras disso ao abrigar um velho viajante necessitado. Agradecido pelos cuidados, o ancião conta ao mancebo a respeito de sementes douradas capazes de pôr fim à fome e mitigar sofrimentos.
O velho falava do trigo ou da cevada, e Shuna, para ajudar seu povo, parte em busca das sementes douradas. Ele descobre na jornada a devastação quase total do mundo, praticamente tudo havia se reduzido a ruínas e grave corrupção espiritual. "Shuna no Tabi" consegue ser um lembrete de que, diante de grandes dificuldades, desafios e privações, muita gente se rende ao que há de pior dentro de si e marcha, mais ou menos consciente, aos vales da desgraça. A escravidão humana, por exemplo, inclusive de crianças, era atividade rentável e mui socialmente aceitável; além disso, o herói encontra uma tribo de canibais nas planícies devastadas.
Miyazaki disse que baseou "Shuna no Tabi" no conto tibetano d'um príncipe que, por haver roubado sementes de cevada do rei dragão, virava cachorro, e que seu desejo inicial era verter a aventura de Shuna à animação, mas acabou tendo de se contentar com os quadrinhos. Miyazaki não se abateu, estava comprometido a narrar sua história, e o resultado foi uma pequena preciosidade permeada de painéis cativantes e conduzida por um protagonista justo e muito ativo. Shuna não fica esperando as coisas acontecerem com ele, quase sempre é senhor de seu destino e de suas ações: ele fabrica as próprias balas; toma a si a responsabilidade de acabar com a miséria do seu reino; liberta escravas.
A história é em quadros, porém os balões de diálogos não são tão presentes, no mais das vezes a escrita é deixada em blocos pelas páginas, e a impressão que esse expediente me passou foi a de que Miyazaki queria que os desenhos respirassem e ganhassem mais força. O autor me pareceu bem cônscio do que produzia, e um indício robusto disso foi o uso do simbolismo da terra. A terra, entre outras coisas, representa vida, fertilidade, renascimento, e há um momento da história em que Shuna, quebrado pela jornada que empreendera, fica "plantado", cercado de pedras, até retomar a vivacidade.
Hayao Miyazaki mostra em "Shuna no Tabi" que também tinha potencial para ser um mestre nos quadrinhos.