Em 1638, John Tradescant é filho do mais importante jardineiro real da Inglaterra. Lidando com o luto pela esposa, ele embarca rumo à Virgínia para fugir da dor enquanto recolhe plantas e objetos que possam ser expostos na coleção de curiosidades que sua família mantém. Na colônia, ele recebe como guia uma jovem índia, Suckahanna, com quem vai descobrir a rica vida que existe dentro daquelas florestas deslumbrantes. Na hora de ir para casa, ele parte já com a esperança de voltar para se casar com aquela menina, mas ao chegar, descobre que sua vida mudou drasticamente: seu pai faleceu deixando para trás dívidas e uma mulher desconhecida para ser sua nova companheira e mãe para seus filhos pequenos. Apesar das dúvidas, John e Hester se casam. A tensão política que controla o país cresce com rapidez surpreendente e uma guerra civil explode entre o rei Carlos I e o Parlamento. Dividido entre deveres e desejos, lealdade ou liberdade, John precisa descobrir quem realmente é e em que acredita conforme é puxado em duas direções totalmente opostas.
Philippa Gregory para mim é sempre um acerto. Nunca peguei um de seus livros e saí decepcionada, mas todas as minhas outras experiências foram com narrativas baseadas em personagens históricos e que já tinham chamado minha atenção por algum motivo. Em Terra Virgem, embora tenha a forte presença de algumas pessoas que existiram de fato, o protagonismo é dado ao responsável pelos jardins mais belos dos castelos e palácios ingleses, não um nobre.
Apesar de sua vivência na Virgínia e sua relação com Suckahanna influenciarem seu caráter, a maior parte de sua vida acontece em solo inglês. Os capítulos além-mar foram interessantes principalmente por poder observar como os índios viviam, em que acreditavam e quais os caminhos percorridos até serem expulsos de seu próprio território como John convive por alguns anos com eles, dá para ter uma visão mais aprofundada através dele. A forma como a natureza era respeitada simplesmente me deixava encantada. Entretanto, era quando o foco voltava para Lambeth que a leitura realmente me animava.
De todos os personagens, Hester foi quem mais se destacou uma mulher leal, corajosa e que adotou totalmente aquela família. Enquanto o marido lutava com as várias contradições que viviam dentro de si, ela sabia muito bem onde suas raízes estavam. Por boa parte das mais de 600 páginas, é através dela que a autora mostra a confusão política e social que abalou a Inglaterra em meados do século 17. Aliás, esse foi um dos pontos altos da leitura: a construção desse cenário de caos.
Fiquei com receio de que os detalhes sobre jardinagem me cansassem, mas não aconteceu. O final me deixou esperando por mais, acredito que um epílogo faria toda a diferença, principalmente porque muitos personagens que cruzam seus caminhos com os Tradescant me cativaram. Quando fui fazer algumas pesquisas sobre o livro, descobri que existe um anterior falando sobre o primeiro John Tradescant pai do nosso protagonista , mas, até onde vi, não foi publicado no Brasil; confesso que não acho que fez falta, sinto que consegui aproveitar bem sem essa outra leitura.
Terra Virgem fala muito sobre a batalha constante por autoconhecimento, a força de convicções pessoais ou a válida vontade de sobreviver independente de qualquer coisa , privilégios e sobre a necessidade de liberdade e justiça de um povo.
Para quem gosta de História, considero um prato cheio. Adorei o protagonista falho, indeciso e humano. Definitivamente, é uma das melhores coisas que li esse ano.