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    A Espécie Fabuladora - Um Breve Estudo sobre a Humanidade

    Nancy Huston

    L&PM
    2008
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788525420282
    Português Brasileiro
    4.2
    63 avaliações
    Leram102Lendo8Querem107Relendo0Abandonos2Resenhas5
    Favoritos9Desejados107Avaliaram63

    “Para que inventar histórias quando a realidade já é tão extraordinária?” Feita por uma detenta de um presídio feminino, tal pergunta – provocadora e incômoda – é o ponto de partida de A espécie fabuladora, ensaio tão impressionante quanto sui generis. Por que, afinal, essa necessidade incontrolável, comum a todas as culturas, de tecer fábulas, de criar ficções? Guiando-se por seu arcabouço de leituras, por sua experiência como ficcionista e pensadora, e sobretudo por uma sensibilidade incomum que enxerga relações onde elas parecem invisíveis, Nancy Huston, uma das mais renomadas romancistas e intelectuais da atualidade, conduz o leitor por uma investigação sobre a genealogia da espécie humana, sobre como nos tornamos os fabuladores que somos. Partindo da constatação de que o ser humano é o único animal que sabe que nasceu e que vai morrer, aliado ao uso da linguagem verbal pela nossa espécie, a autora estabelece a importância, para nós, do Sentido (da vida, de Deus...). O Sentido, diz ela, “é a nossa droga pesada”. Por isso, o indivíduo não se forma sem ficções e narrativas (sobre a família, sobre o seu povo, sobre o seu nascimento etc.). Mais tarde na vida, algumas pessoas fazem sua própria releitura de ficções (ou modelos) recebidas e recriam a sua própria história. Outras não conseguem romper com padrões de ficções primitivas e ficam à mercê de serem manipulados por “ficções nocivas”, que “engendram o ódio, a guerra, os massacres”. Entre tantas fábulas a que somos expostos e que engendramos ao longo da nossa existência, o romance – quintessência da nossa tendência ficcionalizadora – tem um caráter civilizatório. O valor supremo do romance é o poder de nos colocar no lugar do outro, de relativizar convicções, de criar compaixão e entendimento, de propiciar a identificação com outras realidades, com outros personagens. Ecoando os Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, A espécie fabuladora é um ensaio múltiplo e único. Múltiplo por navegar com segurança em domínios da teoria da literatura sem jamais perder a conexão com outros campos do conhecimento, como a história e a psicanálise; único por aliar reflexões num delicioso e intenso raciocínio, que nos explica e ilumina.

    Resenhas (5)Ver mais
    Júlio Augusto picture
    Júlio Augusto19/07/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um livro curto mas assustadoramente profundo

    Este livro chegou às minhas mãos por indicação de uma grande amiga doutora em linguagem. Ela deu bastante ênfase na qualidade do material e não apenas foi atendida, mas superada de maneira ímpar. Huston cunha um conceito de "Sentido" (com S maiúsculo) de forma espetacular. Segundo ela, nascemos, crescemos e aprendemos vários Sentidos para coisas que naturalmente não os têm. Casamos, temos filhos e netos, tudo isso porque um ser superior assim o deseja, pois Ele preparou algo para nós, e esse é o grande Sentido da nossa vida. Cada um vive em função desse propósito. Após apresentar esse conceito, o livro realiza uma dissecação meticulosa das narrativas contidas em todas as coisas, revelando como somos condicionados a acreditar que tudo precisa fazer sentido. Huston expõe a tendência do cérebro humano de criar explicações quando não as encontra, ou de se apegar às narrativas alheias na ausência de respostas próprias. A autora argumenta que estar inserido na sociedade significa, inevitavelmente, compactuar com narrativas coletivas. Somos induzidos a pensar que somos iguais, que compartilhamos ideais, valores e objetivos. Como os fatos muitas vezes são desinteressantes, precisamos comprar histórias, e para que sejam compradas, alguém precisa vendê-las. Portanto, narrativas vendem, seja qual for seu conteúdo. Um dos aspectos mais provocativos do livro é a discussão sobre como nosso cérebro já está programado para processar informações através dessas narrativas. A linguagem e os pensamentos estão tão intrinsecamente ligados ao nosso ser que ignorar essas histórias pode levar à desassociação, uma condição psicológica grave. Estamos, portanto, eternamente imersos nessa teia de significados e "Sentidos". Uma conclusão amarga é que matamos e amamos por facetas e expressões desse Sentido que nos cabe. Adorei o livro, mas recomendo cautela na leitura. É preciso ter estômago, pois parte das pessoas entrevistadas são detentas de uma penitenciária feminina. Nancy ouviu suas histórias e justificativas, entendeu os Sentidos de cada uma para suas ações, e comparou com pessoas que não estão presas. Através dessa análise, ela nos convida a refletir sobre a natureza humana e nossa necessidade de dar sentido às coisas, revelando verdades desconfortáveis sobre nós. É um livro assustadoramente profundo que só recomendo para quem esteja pronto para uma jornada introspectiva. Acredito que todo mundo ficará impressionado com algumas conclusões apresentadas sem rodeios. Em síntese, é um livro curto com uma leitura rápida e objetiva, pedrada do começo ao fim!

    3 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.2 / 63
    • 5 estrelas46%
    • 4 estrelas27%
    • 3 estrelas21%
    • 2 estrelas6%
    • 1 estrelas0%
    Nancy Huston profile picture

    Nancy Huston

    Nancy Huston nasceu em 1953 em Calgary, Canadá. Filha de um casal de pesquisadores universitários, aos seis anos foi abandonada pela mãe, experiência que deixou marcas profundas na sua vida, e, inclusive, a fez optar pela literatura. Aos quinze anos se estabeleceu nos Estados Unidos com o pai. Em 1973, feminista, chegou a Paris e se engajou nos grupos pós-68, aderindo a seus ideais marxistas. Estreou na literatura em 1979, com um livro de ensaios. Em 1981, publicou seu primeiro romance, Les Variations Goldberg, pelo qual foi indicada ao Prêmio Femina. Seguiram-se outros dez, entre os quais os de maior sucesso são Cantique des plaines (1993) – que lhe trouxe renome internacional –, Instrument des ténèbres (1996), L’Empreinte de l’Ange (1998), Dolce Agonia (2001) e Marcas de Nascença (2006). Além de diversas premiações recebidas ao longo dos anos, em 2006 foi finalista do Prêmio Goncourt e vencedora do Prêmio Femina por Marcas de Nascença. Fluente em francês e inglês, a autora escolhe a língua da escrita em função da ambientação do livro. Numa entrevista concedida à revista francesa Elle, a autora revela que os livros escritos em inglês são os que mais a tocam, provavelmente por ser sua língua materna. A autora também traduz seus próprios livros de uma língua à outra, utilizando esse processo para fazer ajustes na versão original, como em Marcas de Nascença, escrito originalmente em inglês e traduzido imediatamente para o francês pela autora. Nancy Huston foi casada com o historiador, filósofo e lingüista búlgaro Tzvetan Todorov de 1974 a 2014, com quem tem dois filhos.

    29 Livros
    4 Seguidores
    Alberta, Canadá

    Nancy Huston