Glamour e boca do lixo - Histórias da prostituição no Centro de São Paulo

    Luciano Costa, Gustavo Pinchiaro, Ricardo Casarin e Renan Rodrigues

    Multifoco
    2010
    164 páginas
    5h 28m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Se nos anos 30 e 40 o centro de São paulo era uma zona de concentração financeira e glamour, hoje o cenário é um tanto diferente. A região é mais conhecida pela presença de usuários e traficantes de drogas e pela prostituição e marginalidade da Boca do Lixo. Este livro busca contar histórias sobre essa transformação e mostrar o que se esconde pelas ruas do centro da cidade.

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    Ana Carmo picture
    Ana Carmo22/08/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Glamour e Boca do Lixo começou como projeto de conclusão do curso de jornalismo de 4 alunos da faculdade Metodista, mas mais que justo que um trabalho tão interessante fosse parar nas nossas estantes também. O livro começa com uma introdução contendo uma rápida aula de história da prostituição em São Paulo. De 1800 aos dias de hoje e todas as mudanças geográficas e sociais que aconteceram no período. Mas é a partir do primeiro capítulo que a coisa se torna, digamos, mais humana. Pois é exatamente quando começa a narrativa de como funciona a vida das pessoas envolvidas com a prostituição. Prostitutas, clientes e até mesmo comerciantes da região, que tem suas vendas impulsionadas pela concentração das mulheres em determinadas regiões do centro. Há um relato minucioso sobre o dia a dia na Boca do Lixo pincelado com histórias de vida ora engraçadas, ora tristes, até mesmo poéticas, mas sempre reais. Nada de análises, só os fatos como são. E detalhadamente, já que são indicados endereços, valores, tempo dos programas, etc. Não fosse a seriedade do texto, eu diria que é um guia de prostituição para dummies. A linguagem usada no livro é bem jornalística, sem rodeios e muito fácil e leve de ler. A temática é atual e levanta algumas questões e pontos de vista bastante interessantes sobre o projeto de revitalização do centro, assunto tão discutido por nós paulistanos nos últimos anos. A pesquisa feita pelos jornalistas é bastante completa e a narrativa extremamente visual, o livro ainda conta com as fotos de Lívia Ramirez – www.flickr.com/liviaramirez – que acompanhou os autores pelas andanças no quadrilátero do sexo no centro da cidade. Por estas andanças, também seguimos nós, página por página. São sete capítulos, todos recheados por depoimentos de prostitutas e seus clientes. Eles contam sobre suas histórias de vida e suas expectativas e sonhos. Casamentos, separações e bastante solidão. A maioria diz que não quer sair da profissão: “Que mulher que começa nessa vida vai querer depois ir trabalhar por 400, 500 reais? Deixar de comprar bolsa, roupa, celular?” Alguns casos são bastante curiosos, como a história de Débora, nome fictício assim como todos no livro, formada em direito e com registro na OAB, vinda de uma família conservadora ao ponto de interná-la por ter convicções religiosas diferente do pai autoritário. Virgem até os 25 anos, Débora saiu de casa após o pai ameaçar de interná-la pela segunda vez. Veio para São Paulo sem um real no bolso e acabou se prostituindo pra ter dinheiro o suficiente pra não dormir na rua. Tem também a história da baiana Paula que largou o emprego de funcionária pública concursada após o convite de uma amiga que trabalhava numa boate de striptease. Paula viveu disso um tempo, saiu, casou, virou crente, separou e voltou pra prostituição. Com a grana que ganha paga o aluguel do apartamento em que mora e sua faculdade de psicologia. Esse é seu plano B para quando largar de vez a vida de prostituta. Provavelmente ela está no caminho certo, pois além de sexo elas conversam muito com seus clientes e compartilham de suas mais profundas fantasias e taras. “Puta também é psicóloga. Tem cara que vem aqui e paga cerveja pra ficar conversando, pra chorar, reclamar do chefe, da mulher da vida. Uma vez eu tava dançando no palco e um cara me abraçou e começou a chorar. Ele falava ‘eu te perdoo Núbia, te perdoo por você ter me chifrado, eu te amo’. Entrei no embalo e acabei ganhando mais um marido.” conta Diana sobre como conheceu um de seus clientes fixos. Talvez Freud explique.

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