Quem, na juventude, não teve anseios de querer mudar o mundo? Quem não sonhava, em sonolentas madrugadas, a empunhar bandeiras revolucionárias com vigor e coragem? Nas décadas de 10… 20… 30 muitos jovens, com certeza, tinham esta visão de serem os heróis da pátria e salvadores do mundo. Afinal, eram anos conturbados (revolução Russa, comunismo em ascensão, queda da bolsa, Getúlio no poder, etc…) e o mundo transformava-se e multidões de jovens e inconformados saiam às ruas (e eram perseguidas, mortas ou sumiam da vista de familiares e amigos) para protestar e revolucionar conceitos e comportamentos. Anos de chumbo e de transformação.
Estes pensamentos utópicos começaram a fervilhar na cabeça do jovem Valdo nos idos anos 30. Ser filho de um humilde capataz naqueles tempos não era nada fácil. Após ver o pai ser humilhado pelo dono das terras ele tinha um só pensamento: Vingar-se da humilhação e acabar com o poder econômico e dar ao proletariado (palavra que só foi conhecer bem depois através da leitura de livros comunistas) o comando dos destinos do mundo. Grande utopia, claro. O destino tinha outros planos para este jovem idealista…
Por ironia do destino (e a sempre genialidade e veia cômica de Scliar) o jovem Valdo – comunista ferrenho e grande leitor de Marx e Lênin – foi trabalhar no lugar mais improvável possível: Na construção do Cristo Redentor! Pior castigo para um comunista impossível.
Apesar de tudo, Eu vos abraço, milhões de Moacyr Scliar não é um livro pessimista. Longe disso. A realidade que o cotidiano impõe ao herói da história (e a nós, seus leitores) é que é dura. É preciso comer, beber, ter onde morar, o que vestir, etc… e isto são comuns a qualquer mortal (comunista ou burguês). Claro que é preciso sonhar, ter objetivos na vida. E Valdo os tem de sobra através da sua literatura esquerdista e seus sonhos de salvador da pátria e defensor de fracos e oprimidos.
Uma narrativa que empolga e leva o leitor a procurar entender as razões das escolhas de Valdo na sua jornada a se tornar um comunista (ou não). Afinal, a vida é feita de escolhas e Moacyr Scliar vai desfiando sua genialidade em cada página com seus personagens reais e imaginários e em histórias reais ou ficcionais. Aliás, a ambientação histórica é quase um personagem deste livro que se lê de um fôlego só.
Ao chegar à última página, lembrei da composição de Elis Regina: “Como Nossos Pais” que, entre outras verdades, escreve:
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais…
Meus amigos, a realidade, às vezes, é cruel e é preciso seguir em frente e engolir alguns sapos (ou deixar alguns ideais pelo caminho). Mas o que nos resta fazer? Sigamos em frente…
Talvez a felicidade esteja em outro lugar. Em outro sonho.
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