O que mais assusta ao longo da leitura de "A Falência da Política" - uma coletânea de textos em grande parte publicados em diversos jornais (da Folha de São Paulo à imprensa sindical) na década de 1980 - é sua impressionante atualidade, principalmente quando percorre temas como voto/eleições ("O voto e as ilusões" e "Qualquer Estado, por natureza, é conservador"), ambientalismo ("Ecologia e capitalismo"), o binômio exclusão-violência ("Questão social: ainda caso de polícia?") e meritocracia ("Japão: escolarização e suicídio").
Como socialista heterodoxo, Tragtenberg também consegue demonstrar, com desconcertante simplicidade e clareza, que há muito mais coisas em comum entre a direita, seja ela liberal ou conservadora, e a esquerda trotskysta do que supõe nossa vã filosofia. Ele não faz média com ninguem - seja o Estado, a Igreja, os partidos políticos, as empresas, etc. Para ele a verdadeira política se faz com a auto-organização dos trabalhadores e sua participação direta nas decisões. Isto se reflete em um bom punhado de artigos nos quais dedica entusiasmada atenção às formas inovadoras de autogestão e de associativismo.
Em pleno período eleitoral, faz bem a leitura de um autor de idéias desconcertantes e provocadoras como Tragtenberg, que via a política brasileira como "Governo por procuração".