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    Legisladores e intérpretes - Sobre modernidade, pós-modernidade e intelectuais

    Zygmunt Bauman

    Jorge Zahar Editor
    2010
    280 páginas
    9h 20m
    ISBN-13: 9788537802724
    Português Brasileiro
    4
    20 avaliações
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    Qual o papel dos intelectuais no desenvolvimento cultural de seu tempo? A pergunta que intrigou e ainda intriga tantos pensadores é respondida de forma brilhante por Bauman. Partindo da natureza da cultura nos períodos que se convencionou chamar de modernidade e pós-modernidade, ele examina a formação da categoria de intelectual e sua progressiva passagem da função de legislador à de intérprete. Na modernidade, o intelectual tinha a tarefa de formar os homens. Sua função de legislador era legitimada pelo conhecimento superior sobre as coisas do mundo e decisiva para o aperfeiçoamento da ordem social. Na pós-modernidade, o intelectual é caracterizado pelo trabalho de intérprete: procura facilitar a comunicação entre indivíduos, atuando como uma espécie de negociador em tempos de globalização e de afirmação de diversidades. Um livro fundamental para a compreensão de nossa época.

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    Paulo Silas Taporosky Filho09/01/2017Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O papel, a função, o objetivo, enfim, a finalidade dos intelectuais no mundo moderno: é sobre tal questão que Bauman se ampara para dar vida ao excelente “Legisladores e Intérpretes”. Aquilo que é produzido pelos intelectuais é levado conta no desenvolvimento da sociedade? A cultura em marcha segue de mãos dadas com a realização dos intelectuais? Uma coisa está ligada à outra? Afinal, o que ou quem são os intelectuais? Quem criou e quem define essa condição? Qual é produto quem produzem? Bauman explica que o intelectual surgiu juntamente com o Estado absolutista, sendo que o papel a ser desempenhado era o de legislar de acordo com uma pretensão abrangente, em largar escala, universal, sobre o progresso da humanidade, da sociedade, da razão. Deste modo, tendo o intelectual um conhecimento para além do comum, mais alto, sobre todas as coisas, caberia à este fornecer as bases, as diretrizes, as orientações, para um melhoramento da sociedade. Conforme Bauman: "Quando foi cunhada, nos primeiros anos do século XX, a palavra “intelectual” era uma tentativa de recapturar e reafirmar a centralidade social e as preocupações globais que estiveram associadas à produção e disseminação do conhecimento durante o Iluminismo. Ela era aplicada a uma série heterogênea de romancistas, poetas, artistas, jornalistas, cientistas e outras figuras públicas que sentiam ser responsabilidade moral sua, e seu direito coletivo, interferir de modo direto no processo político por meio da influência que exerciam sobre as mentalidades da nação e moldar as ações de seus líderes políticos." O intelectuais assim se autoproclamaram. Diante da necessidade que julgaram possuir acerca de estabelecer visões mais escorreitas do mundo e de seu progresso, formaram-se os intelectuais. Nasceram assim como um dos símbolos da modernidade. É dessa época que também “se estabeleceu a síndrome poder/conhecimento, o atributo mais visível da modernidade” . A era moderna, explica o sociólogo, é aquela que se definiu enquanto Razão e racionalidade reinantes, de modo que quaisquer outras formas de se ver o mundo eram insuficientes. Entrariam na conceituação de modernidade: "a visão da história como marcha não irrefreável das lumiéres; uma luta difícil, mas afinal vitoriosa, da Razão contra as emoções ou os instintos animais; da ciência contra a magia; da verdade contra o preconceito; do conhecimento correto contra a superstição; da reflexão contra a existência acrítica; da racionalidade contra a afetividade e o domínio dos costumes." Foi num momento posterior que o intelectual passou da função de legislador para a de intérprete, podendo ser feita uma análise comparativa da transição da modernidade para a pós-modernidade. A visão de mundo pela pós-modernidade leva em conta os diversos modelos de ordem existentes, não sendo admitidos “testes de legitimidades” para dar sustância de fundamento único, legítimo e devido para uma ordem isolada. Afinal, há de se levar em conta a pluralidade de localidades, de significados, de comunidades. O resultado peculiar disso é que “do ponto de vista pós-moderno, a relatividade do conhecimento (isto é, sua “inserção” na própria tradição sustentada em comum) é um traço duradouro do mundo” . A fala pós-moderna visa analisar o crédito da modernidade como “autodesignação da civilização ocidental”, vez que se “implica que as qualidades autoatribuídas contidas na ideia de modernidade não se sustentam hoje”. Daí que se diz que “o debate pós-modernista trata da autoconsciência da sociedade ocidental e das bases (ou da ausência de bases) dessa consciência” . É reconhecendo sua futilidade que a pós-modernidade abandona a própria busca. Estabelece-se pelo viés da incerteza, carente de bases concretas que se podem dizer como as corretas, ou seja, a era pós-moderna, considerando a “quantidade ilimitada de formas competidoras de vida”, é “incapaz de provar que seus termos se baseiam em algo mais sólido e vinculante que suas próprias convenções historicamente formadas” . Bauman utiliza a metáfora do “legislador” e do “intérprete” para situar a estratégia do trabalho intelectual em cada um dos mencionados períodos. À estratégia moderna cabe o papel dado ao intelectual de “legislador”, de modo que se consiste em tecer análises e observações acerca de controvérsias e opiniões sobre as coisas do mundo, optando assim por aquelas que irá se impor como as verdadeiramente corretas. A autoridade para tal arbítrio se legitima pelo conhecimento superior, o qual os intelectuais possuem amplo acesso (muito mais que os não intelectuais). A forma para se estabelecer as diretrizes, as bases, as regras, dizendo o que é válido e o que não é, também é construída pelos próprios intelectuais. Já para a estratégia pós-moderna é conferido o papel de “intérprete” ao intelectual, no qual “consiste em traduzir afirmações feitas no interior de uma tradição baseada em termos comunais, a fim de que sejam compreendidas no interior de um sistema de conhecimento fundamentado em outra tradição” . O objetivo é dar mais voz para todos os participantes da sociedade, mantendo-se o equilíbrio nas interações que surgem dos diálogos de tradições diferentes. Para Bauman, a modernidade não pode se dizer como terminada, visto que sua tarefa não foi plenamente cumprida. A tradição cultural do Ocidente a manteria viva, além da própria “prática coletiva de seus portadores intelectuais”. Assim sendo, “vista da perspectiva do projeto da modernidade, a condição pós-moderna nada traz de qualitativamente novo, enquanto as tarefas dos intelectuais modernos ainda restam a ser desempenhadas” . A função, portanto, dos intelectuais, hoje, seria a de levar adiante o projeto da modernidade, visando assim dar efetividade à sua plena realização. Na edição brasileira da obra, Bauman explica ainda o seu famoso conceito de modernidade líquida, o que fez a partir de um viés crítico da noção de pós-modernidade. Um livro importantíssimo para uma melhor compreensão do surgimento de nossa época. De forma coesa, profunda, robusta, erudita e bastante esclarecedora, Bauman logra notório êxito em sua pretensão escrita. Vale conferir!

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    Zygmunt Bauman

    Foi um aclamado sociólogo polonês. Professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia até seu falecimento, iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados e em 1968, sendo afastado da universidade. Logo em seguida emigrou da Polônia, reconstruindo sua carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde em 1971 se tornou professor titular da universidade de Leeds. Lá conheceu o filósofo islandês Ji Caze, que influenciou sua prodigiosa produção intelectual, pela qual recebeu os prêmios Amalfi (em 1989, por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra).

    62 Livros
    788 Seguidores

    Zygmunt Bauman