A obra de Michel Onfray pretende elaborar uma filosofia hedonista para o nosso tempo. "A Razão Gulosa" não foge a essa linha. Neste livro, Onfray compara a leveza do champanhe ao borbulhar do desejo e - citando Kierkegaard - diz que a vida hedonista é "crepitante" como o champanhe. Ressuscita a figura genial de Grimod de la Reynière, dândi gastronômico da época da Revolução Francesa. E no quarto capítulo, ápice do livro a meu ver, procura resgatar a grandeza filosófica de Brillat-Savarin, autor da célebre "Fisiologia do Gosto". Representante da corrente pouco estudadda dos "idéologues" (à qual pertence também Cabanis e Volney), Savarin explica o sensualismo de Condillac à arte da mesa e se torna a referência maior para um saber "gourmand". Segundo o autor, "A Razão Gulosa" se coloca sob os auspícios de uma figura nova: o anjo hedonista, aquele que vela quando um prazer é degustado em sua dimensão de ampliador da existência. Sente-se, ao fim da leitura, que este é um ensaísta original, que se preocupa com a elaboração de um hedonismo filosófico, não vulgar, pois "gozo sem consciência é apenas ruína da alma".


