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    Que fazer? - A organização como sujeito político

    Vladimir Lenin

    Martins Fontes
    2006
    343 páginas
    11h 26m
    ISBN-10: 8599102249
    Português Brasileiro
    4.5
    12 avaliações
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    Em que medida a obra de Lenin ainda dialoga com nossa realidade? Na opinião de Atílio Borón, a situação política do início do século XXI exige uma releitura séria, crítica e criativa da obra de Lenin, cuja pertinência se reafirma quando se examinam acontecimentos recentes da América Latina - sacudida por uma série de grandes mobilizações populares aceleradas pelo fracasso do neoliberalismo, incapaz de cumprir sua promessa de fazer a economia crescer e distribuir seus frutos. Vladimir Ilich Lenin (Rússia, 1870 - 1924). Político, filósofo marxista líder da revolução de 1917, foi um dos maiores revolucionários do século XX. Atílio Borón (Argentina, 1943). Sociólogo e doutor em Ciência Política pela Universidade de Harvard. É autor de Teoria e filosofia política, Filosofia política marxista, A coruja de Minerva e Estado, capitalismo e democracia na América Latina.

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    Marcelo Gabriel Delfino11/07/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Muitos são os que consideram Lênin ultrapassado, mesmo equivocado em suas propostas e maneira de compreender o marxismo. Enquanto autores como Lukacs conduziram o marxismo a patamares elevadíssimos, Lênin só tinha como preocupação desenvolver os meios para a revolução. E sua maneira de entender que Marx havia proposto um pensamento voltado para a prática, para modificar o mundo, a despeito de sua origem, me parece muito interessante. Podemos pensar, a partir do autor, como a incipiente direita brasileira deveria tentar lidar com um país totalmente aparelhado pela esquerda em todas as posições de liderança, no judiciário, nas instituições religiosas, nas escolas, etc. E fico muito decepcionado quando vejo repetirem, ad nauseam, o bordão de que Gramsci foi aplicado à perfeição em nosso país e só. Não aparece um plano, uma tentativa de combate, nada; geralmente aqueles que urram esse bordão logo se calam, esperando que alguém tome alguma atitude e modifique as coisas. Mas que se saiba que se não fosse por Lênin, o pensamento de Gramsci jamais teria ganhado vida, nem seria aplicável. Isso porque o princípio mais importante, destacado à exaustão nesse livro, é que a causa precisa de uma organização séria, centralizada e com grande estrutura, capaz de delegar tarefas diferentes a cada região do país. Lênin pensava, claro, no caso da Rússia do começo do século XX, mas podemos transpor seus ensinamentos sem muita dificuldade. Imaginemos, por exemplo, que o processo eleitoral está completamente bloqueado, como era o caso, num país dominado pelos czares. O que poderíamos fazer para influenciar a política e inserir uma brecha capaz de destruir o sistema? A divulgação das ideias, explicitando que a luta de cada trabalhador não era contra o proprietário de sua fábrica, mas contra todo o sistema que o escraviza, fazendo o mesmo com todos os operários de todos os outros países. Dessa forma, com uma atitude prática, o partido criaria consciência da luta de classes, ou seja, cumpriria exatamente o que Marx dizia sobre a consciência se fazer de acordo com a luta. Mas, ao mesmo tempo, direcionaria esse processo para suas verdades. Pode parece óbvio hoje em dia, quando temos tantas redes sociais, TV, youtube, etc, mas naquele momento isso foi genial. Lênin entendia que os grandes jornais eram armas de propaganda da burguesia e só faziam incutir nos pobres os valores que os levavam a mais docilidade diante de suas condições miseráveis. Tudo isso é discutível, evidentemente, mas estou me referindo estritamente a seu pensamento, não estou fazendo uma crítica. Vale lembrar que apesar de já existir o entendimento de que jornais influenciavam a opinião pública (termo que não tenho certeza que existia já naquela época), o trabalho de Habermas sobre isso ainda demoraria algumas décadas, o que mostra que Lênin estava sim na dianteira entre seus pares. Enfim, os jornais além de espalhar a mensagem revolucionária seriam um modo de fazer pressão sobre eventos cotidianos, trazendo para os trabalhadores uma interpretação que aos poucos iria mudar sua visão de mundo. Além disso, Lênin discute algumas teses da época, advogadas por nomes de peso, mas que, se seguidas, levariam o movimento à derrota. Uma delas, talvez a mais importante, pois toca diretamente na questão da consciência da luta de classes é sobre os movimentos espontâneos das massas. O autor mostra que esse tipo de revolta sempre existiu (aqui Lênin antecipa, embora em sentido um pouco diferente, as teses de Thompson sobre as revoltas populares na Idade Média), sempre vai existir, mas que pode rapidamente se perder em aspectos menores e gastar energia valiosa, sem atingir seu pleno desenvolvimento, nem atacar os verdadeiros inimigos. Uma revolta espontânea ocorre, geralmente, porque as condições de trabalho se tornaram piores, porque os salários já não são suficientes, porque houve demissões em massa, etc, se não houver direcionamento, o autor lembra, elas costumam ficar contidas nesses temas. Só quando são informados da semelhança de condições dos trabalhadores em outros países, de que pouco adianta o que estão reivindicando, é que os revoltosos começam a entender a amplitude de sua luta. De pouco adianta lutar contra as empresas, é preciso enfrentar a estrutura social que as mantém no poder, que permite que a exploração continue. Assim, o autor vai explicando aspectos práticos, como a necessidade de evitar um número enorme de organizações, que jamais alcançarão grande força e serão presa fácil para a polícia, obrigando a recomeçar o trabalho de estruturação constantemente. Ou enfrentar a tradição de pensamento, educando-se no formato marxista para não se deixar iludir pela ideologia burguesa (lembrando que apesar de eu sempre destacar outros pontos, “A Ideologia Alemã” foi escrita para mostrar que todos que buscavam explicar a história humana por qualquer coisa que não fossem as condições materiais de existência, estavam cometendo o erro, às vezes intencional, de reproduzir a dominação burguesa). Esse ponto é trabalhado demoradamente pelo autor, para mostrar que aqueles autores que se limitam a trabalhar dentro da chamada “liberdade de crítica” estão apenas operando nos limites que a sociedade burguesa considera toleráveis e, dessa forma, não realizam uma crítica plena, não são capazes de contestar e incitar à revolução. Para quem pensa que Lênin está superado, que hoje o comunismo opera de forma mais sutil, gostaria de chamar a atenção para a maneira como tudo está estruturado. Há inúmeras organizações, agentes (por afinidade ou pagos), instituições em que o marxismo prospera, o que pode dar a impressão de que não existe mais esse princípio de organização centralizadora. Mas esse é um grande engano. Há outras forças atuando com grandes recursos e motivações, como os globalistas (por exemplo, George Soros, Fundação Ford, Rockfeller, Onu, etc), mas o movimento comunista continua fortemente integrado às determinações centrais, mesmo que muitas vezes pareça se chocar consigo próprio. É que precisamos entender que se trata, no fim das contas, de criar caos para desestabilizar o Ocidente, logo, atacar em várias frentes, pensando sempre dialeticamente, ou seja, criando conflitos constantemente, de todas as frentes possíveis, para que outras de suas organizações pacifiquem (aparentemente), conseguindo mais poder e podendo criar caos em uma escala maior logo em seguida. Apesar da miríade de organizações de esquerda, todas elas continuam respondendo a um comando central. Agora, a partir desse pensamento, podemos nos perguntar: quantos iluminados da direita já pararam para refletir sobre os caminhos que Lênin abriu? É óbvio que a direita não dispõem dos recursos praticamente ilimitados da esquerda, mas parece que pretende ignorar o conhecimento que ela acumulou e que está disponível para ser apropriado e usado. Só um exemplo da perspicácia de Lênin: no curto período que esteve no poder, antes de sua morte, iniciou a revolução tomando todas as propriedades na URSS. Mas isso trouxe revoltas, algumas delas importantes, como a dos marinheiros, e desestabilizou a revolução ainda jovem. O líder, então, percebeu que poderia muito bem acomodar um capitalismo frágil, incapaz de gerar grandes riquezas, mas que daria à população a ilusão de que estava vivendo livremente outra vez. Assim, conseguiu liquidar as revoltas sem o uso de força e convencer a população de que o mundo que estava surgindo era realmente um paraíso terrestre. E o livro trata especificamente da necessidade de organização, para criar um movimento forte e coordenado, capaz de se desdobrar em infinitas áreas de atuação. A insistência em relação a um jornal envolvia o processo de mobilização/ conscientização das massas, fator essencial para o crescimento do movimento revolucionário. Não faz muito tempo assisti, e participei, de uma discussão onde um lado defendia o processo de educação, de retomada dos valores conservadores, de desenvolvimento da inteligência. Eu, por outro lado, disse da urgência do momento, de que podemos até investir nesse caminho, mas ele só trará resultados a longo prazo, e não podemos nos dar ao luxo de permitir que a esquerda assuma o poder completo em nosso país. Pois não encontrei sequer uma alma solidária a minha posição. Todos, absolutamente inebriados pelos aromas do conhecimento, sonhando fazer um mundo melhor sentados em seus escritórios e debatendo Aristóteles, esperando as palmas de subalternos embasbacados com tamanha perspicácia e inteligência, desprezaram minha linha de pensamento, por considerá-la simplista demais, visando apenas aspectos práticos. Pois a direita, que agora repete a todo instante que não é um movimento, que não é um grupo, mas se trata sempre de indivíduos (na discussão fui ridicularizado por lembrar a necessidade de um grupo, pois ele permite ações mais efetivas, enquanto todos queriam receber os louros individualmente, sua vaidade não tem limites), está sempre em desvantagem, porque a esquerda está organizada demais e tem métodos para engolfar cada novo “indivíduo iluminado” que tente se levantar contra ela. Ninguém ali, sem dúvida alguma, jamais havia lido Lênin. Em última instância, Lênin nos ensina que estando na posição dominante ou não, se trata sempre de poder, e tudo o mais é acessório. As consciências só precisam se desenvolver até o ponto de criar militantes, as massas só interessam enquanto força revolucionária. Ora, imagine se a direita se colocasse a luta pelo poder como importante, ao mesmo tempo que luta para desenvolver as inteligências de verdade... Mas os gênios matam seus projetos, por vaidade, ainda antes de nascer. Quem disse que a direita é contra o aborto? Ela mata suas chances ainda antes de nascerem... Vejamos o caso das manifestações de 2013. A população foi às ruas, tomada exclusivamente pelo sentimento de revolta com um país tão indigno, tão corrupto, cínico e violento. Era um momento especial da história do país, mas não havia um movimento estrutura de direita que soubesse direcionar para as pautas verdadeiras de mudança. Ao contrário, a esquerda soube manipular e inflar cada dia mais, usando slogans vagos, que não pareciam saídos de dentro dos principais partidos comunistas do país. A consequência foi a tentativa da presidente Dilma de implantar os soviets, com o nome de conselhos populares, que seriam um meio de trazer a “vontade do povo” como uma espécie de poder constitucional, com poder de veto em leis, etc. Na prática, teríamos um meio de interferência direta dos movimentos sociais, todos satélites de partidos políticos da esquerda, nas decisões políticas do país. Teríamos normatizado uma ditadura com plenos poderes da esquerda, justamente quando dizia ser mais democrática possível. Ora, a esquerda soube capitalizar o momento e revertê-lo em benefício próprio, principalmente porque não há uma força contrária organizada na direita capaz de ao menos impedi-la. Em 2015, novamente, dessa vez manifestações com caráter mais objetivo; mas que foram rapidamente domesticadas na política partidária, sem a capacidade de aproveitar o sentimento de insatisfação contra o sistema político brasileiro. As oportunidades vem acontecendo, mas não há ninguém capaz de aproveitá-las. Ao contrário, os indivíduos conservadores (que tem urticária de se verem como um grupo) preferem expressar sua imensa erudição criticando a banalidade do povo nas ruas, o que ainda serve para lhes diferenciar da massa inculta, como se sabe. Podemos até não gostar de Lênin, considerando que atuou pela causa mais assassina da história, mas precisamos entender que seus princípios podem ser úteis, desde que se mantenha o respeito aos valores fundamentais do Ocidente. Sua preocupação foi principalmente criar um método de tomada do poder. Nesse quesito ele foi completamente feliz. É óbvio que não podemos praticar as mesmas ações, mas podemos nos inspirar no esquema de organização e trabalho com as massas. Lênin tem muito a nos ensinar e só o preconceito tolo de não ler autores “do outro lado” (bobagem que limita muito os esquerdistas, mas que já começa a tomar também os conservadores) pode impedir de aprender com ele.

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    Vladimir Ilyich Ulyanov

    Revolucionário e teórico político comunista fundador da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e seu primeiro chefe de governo, derrubando o regime czarista em 1917. Ideologicamente marxista, suas teorias políticas são conhecidas como marxismo-leninismo.

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    Vladimir Ilyich Ulyanov