O selo colado na capa de Memória de Elefante adverte: “só para adultos”. Mas não espere violência e nudez gratuita na graphic novel de estreia do artista plástico e quadrinista Caeto. A advertência antecipa uma tortuosa viagem pela vida do autor e deixa claro para os desavisados que essa leitura não vai entregar apenas diversão: há muito peso contido entre essas páginas.
Malgrado algumas tentativas esparsas de popularizar o gênero em décadas passadas, a cultura da graphic novel é um fenômeno relativamente recente no Brasil e tem ganhado destaque no mercado editorial graças ao investimento de editoras como a Companhia das Letras, que recentemente lançou o selo Quadrinhos na Cia, a Conrad e a Zarabatana, dentre outras.
O mais recente lançamento do selo Quadrinhos na Cia – logo após o sucesso de Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho – é a prova de que o mercado tem se mostrado receptivo também às graphic novels feitas por artistas brasileiros. Memória de Elefante é uma bem sucedida incursão ao subgênero autobiográfico, sem dever nada a HQs como Umbigo sem Fundo, de Dash Shaw, Retalhos, de Craig Thompson e Fun Home, de Alison Bechdel, exemplos recentes de artistas que souberam utilizar com maestria a arte sequencial para ilustrar suas autobiografias.
Em pouco mais de 200 densas páginas, o artista ilustra e narra os fatos ocorridos na última década, quando saiu da casa de seu pai para se virar sozinho em São Paulo enquanto sua família se mudava para o interior. O que se segue são situações que beiram o desespero e a desesperança, algumas narradas com um viés (quase) humorístico, ao passo que em outros episódios o artista adota um tom grave mais adequado.
É assim, por altos não-tão-altos e baixos muito-baixos, que Caeto conduz o leitor por suas desventuras: a conturbada relação com o pai, homossexual portador do vírus HIV, sua falta de sorte com as mulheres, sua sorte ainda pior com empregos, a constante falta de dinheiro, a luta para viver de sua arte, suas bebedeiras semanais e a dificuldade de conviver com pessoas com quem dividiu o lar, muitas vezes em condições subumanas.
Em contraponto com lançamentos recentes que fizeram sucesso com público e crítica como Scott Pilgrim (Brian Lee O’Malley), Kick-Ass (Mark Millar) e Muchacha (Laerte), que deliberadamente têm uma pegada mais divertida (sem querer diminuir a importância dessas obras), Memória de Elefante pode não agradar aos que buscam uma leitura descompromissada: trata-se de um livro triste e bastante corajoso em que Caeto aborda abertamente suas experiências e expõe às claras sua vida familiar.
O pai, depois do protagonista, é o personagem mais desnudado nessa biografia. Amante da literatura e da arte, ele dava tanta importância a seus livros, seus discos e sua livraria – mantida em sociedade com seu parceiro – que se esqueceu da família. O temperamento intempestivo, ele manteve mesmo quando a doença se manifestou e precisou da ajuda da ex-mulher e filhos.
Foi nessas páginas dedicadas ao pai que Caeto concentrou uma dose maior de seus próprios sentimentos: com traços certeiros e texto preciso – econômico, porém seguro – o artista preenche páginas e mais páginas com ressentimentos, saudade, dor, angústia, raiva e medo. São essas emoções intrincadas que dão densidade ao enredo e unem tão intimamente a prosa com a ilustração que nos faz pensar que não existiria outra forma de se contar essa história.
Sua arte é básica, simples, traços pretos sobre fundo branco e remete ao trabalho de artistas consagrados como Marjane Satrapi e Art Spiegelman. Estes usaram seus desenhos para amparar narrativas maiores que a vida e mesmo assim não fizeram da arte apenas uma muleta, ao contrário, criaram uma marca registrada com a criatividade do básico.
Assim como essas possíveis influências, Caeto é certeiro em captar o aspecto urbano da metrópole e dar o tom realista necessário à trama, assim retratando bairros como Butantã e Vila Madalena, especialmente a vizinhança da praça Benedito Calixto, localidade fundamental para a trama.
Antes de se aventurar pelo roteiro de Memória de Elefante, a experiência de Caeto com textos resumia-se apenas aos dois fanzines que editou e HQs de, no máximo, vinte páginas, como ele mesmo conta no blog da Companhia das Letras. “Como eu tinha a história quase inteira na cabeça, pensei que escreveria o roteiro em duas semanas. No fim das contas, só fui terminar de escrever seis meses depois”.
O fôlego para a longa narrativa, afinal, não foi obstáculo para o autor. Caeto consegue não apenas o mérito de transcorrer todas as páginas da sua autobiografia sem deixar o ritmo ceder, como também sua história permanece por um bom tempo em nossa cabeça. É impossível não pensar em suas desventuras ao passar todos os dias pela Cardeal Arcoverde a caminho do trabalho.
Caeto nasceu em Assis, interior de São Paulo, em 1979. No mercado editorial desde 2000, já ilustrou obras de autores como Fernando Bonassi e Heloisa Prieto. Foi editor dos fanzines Sociedade radioativa e Glamour popular, em que publicou suas HQs. Memória de elefante é seu primeiro romance gráfico.
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