A HQ faz parte da trilogia assinada por Laudo Ferreira e Omar Viñole, sobre a vida de Cristo, é o segundo volume da coleção e se estende da prisão de João Batista até a entrada de Judas Iscariotes no grupo dos discípulos próximos de Jesus. Os eventos não são descritos na mesma ordem de apresentação da Bíblia e a abordagem é baseada nos evangelhos canônicos e literatura apócrifa.
A obra privilegia a humanidade de Cristo que, invariavelmente, é percebida de maneira muito romantizada e idealizada pela tradição popular. Para isso, autor procura retratar o ambiente em suas angústias rotineiras - como a insatisfação na sujeição a Roma, a expectativa de um libertador profetizado, a decadência moral no governo e religião e as frustrações diversas - refletindo isso nas expectativas em relação a Cristo e na maneira como Jesus tinha que lidar cotidianamente com isso. Essa percepção de nervos à flor da pele - entre outras coisas, pelo que ilustrei - é o ponto central nessa obra, que vai assumindo um tom dramático entre esses anseios e a resposta revolucionária que Jesus propunha para elas. A parte divinizada, de apreciação dos milagres, não é enfática e o Cristo se insere nesse caldeirão com valorização maior a uma nova mentalidade proposta. Isso é interessante, mas aquele nível em que o próprio Jesus sucumbe a essas pressões, ficando suscetível e levado a prática do que procurava mudar eu não reconheço.
Tem passagens que são claramente apócrifas e outras, para espanto e alarde de muitos, baseiam-se nos relatos bíblicos, desconhecidos ou ignorados pelo conformismo tradicional ou por uma certa ignorância ou descaso na leitura e investigação delas. Realço aqui uma passagem bíblica no espírito do que tento expressar, se é que me faço entender (medite em Atos 17:11).
Entre as tais passagens escandalosas para muitos, mas bíblicas, está o registro da família de Jesus (irmãos), citando-se até seus nomes e a oposição que fizeram a Ele em determinado contexto. Só ler a Bíblia!
Na apresentação de Maria Madalena senti também uma certa influência não bíblica, com ela solitária entre os discípulos. O roteiro parece querer instigar uma representatividade diferenciada para Jesus. Oras! Ela era seguidora sim, mas não a única - como é descrito em Lucas 8:1-3.
Gostei da projeção dada a Maria, sua mãe, onde ressalta-se o sofrimento, amor e temor interno pelo filho quanto a seu destino. O João Batista também está muito enfático e gostaria que fosse mostrado os eventos finais que culminaram em sua morte.
A arte tem sua identidade com desenhos longilíneos muito expressivos. Resguardando-se os limites, está mais para o drama renascentista espanhol de El Greco que para a suavidade sacra dos renascentistas florentinos.
"Yeshuah, o círculo interno o círculo externo" traz essa abordagem, em uma fusão de saberes tradicionais e racionalmente projetados.
Finalizando, legal a proposta de resgate de nomes bíblicos em sua linguagem original, com direito até a uma pequena lista de ajuda. Gostaria de ver os outros volumes e não esqueçamos as palavras do Mestre: "Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e elas mesmas são as que dão testemunho de mim" (João 5:39)