Há muito tempo que eu queria ler algo de Émile Zola, célebre idealizador do Naturalismo na Literatura, movimento que no Brasil teve grandes autores como Aluísio Azevedo (O Cortiço) e Raul Pompeia (O Ateneu). Cheguei a ter em mãos por algum tempo uma de suas obras mais conhecidas, Germinal, mas deixei a oportunidade passar. Mais recentemente essa vontade de ler Zola aumentou, quando tomei conhecimento do importante papel desempenhado por ele no famoso Caso Dreyfus (https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Dreyfus), ao publicar o artigo JAccuse, que gerou grande repercussão e acabou determinando a revisão do processo e reabilitação do oficial Alfred Dreyfus, injustamente acusado de traição. Aliás, fiquei sabendo de detalhes desse caso através da leitura do excelente suspense de Robert Harris, O Oficial e o Espião (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2021/04/o-oficial-e-o-espiao-robert-harris.html), que rendeu inclusive um filme dirigido por Roman Polanski (https://youtu.be/OFXJELNxz2w) e que espero ver assim que possível.
Toda essa expectativa foi amplamente compensada pela leitura de A Morte de Olivier Bécaille, que na edição que li é seguida por duas outras histórias curtas: Nantas e A Inundação. A prosa de Zola é envolvente, seduzindo o leitor mesmo ao narrar acontecimentos insólitos. O conto principal, por exemplo, começa com a frase simples e impactante:
Foi num sábado, às seis horas da manhã, que morri, após três dias de enfermidade.
Essa inusitada narrativa na primeira pessoa feita por um morto me evocou imediatamente as Memórias Póstumas de Brás Cubas, meu livro predileto de Machado de Assis. Cheguei a cogitar que um autor houvesse influenciado o outro. Contudo o livro de Machado foi publicado em 1881 e o conto de Zola, até onde pude descobrir, foi publicado em 1884, o que torna impossível que o brasileiro tenha sido influenciado pelo francês e bastante improvável que o oposto tenha acontecido.
Até porque logo a história de Zola segue caminhos bem distintos da de Machado, tratando-se não de uma narrativa do além-túmulo, mas do relato de alguém que é dado como morto (devido a um caso de catalepsia, provavelmente) e que é enterrado por engano. Aqui, por sua vez, a ponte que fiz foi com outro de meus autores favoritos, Edgar Allan Poe, que em seu conto O enterro prematuro trata exatamente do mesmo tema.
E como essa ideia de ser enterrado vivo me apavorava, quando eu era criança! E ainda mais depois que li que isso acontecia com tanta frequência (ou pelo menos o medo de que isso acontecesse era tão comum) que houve um momento em que se costumava enterrar os mortos com uma das mãos atadas a um sino, que ficava acima do túmulo. Assim, se acontecesse de alguém acordar dentro do caixão, os próprios movimentos frenéticos do sujeito lá dentro acionariam o sino e fariam que ele fosse (possivelmente) desenterrado a tempo. É daí que se origina o dito saved by the bell, que em português virou salvo pelo gongo, mas cuja tradução literal seria salvo pelo sino.
O terror dessa situação está presente no conto de Zola, mas esse está longe de ser o interesse principal da história. Ao fim da leitura, eu fui beneficiado pela oportunidade (sempre valiosa) de refletir sobre o uso que venho fazendo de meus dias sobre a terra, por esse lembrete de que esses dias inevitavelmente chegarão a um fim, e de que talvez isso ocorra sem o menor aviso prévio. Memento Mori, lembra-te da morte.
Nantas é uma narrativa leve e interessante a respeito de um homem ambicioso e determinado a vencer a qualquer custo. E A inundação, em minha opinião a melhor história do trio, é uma espécie de versão atualizada da história de Jó, com o cenário do dilúvio como pano de fundo e sem qualquer intenção de propor um sentido ou uma redenção para o sofrimento humano. Se eu achei impactante ler isso hoje, imagine o que sentiram os leitores da época
Ainda duas curiosidades a respeito desse autor:
1) Ele foi o modelo de um dos quadros mais famosos da pintura mundial (https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile_Zola#/media/Ficheiro:Edouard_Manet_049.jpg), em que o pintor Édouard Manet aplicou nas artes plásticas a estética naturalista fundada por Zola.
2) Émile Zola morreu envenenado por monóxido de carbono proveniente de uma chaminé defeituosa, em uma situação misteriosa que deu margem à suspeita de que talvez ele tivesse sido assassinado por inimigos políticos, mas nada jamais foi comprovado.
https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2022/03/um-conto-naturalista-sobre-assustadora.html