É dispensável uma apresentação de Platão. São diálogos com profunda penetração filosófica misturados a uma capacidade literária fora do comum. Este é um dos diálogos aporéticos. Para os que abraçam a tese das três fases dos escritos de Platão, este seria localizado, pois, na primeira. Trata-se de um diálogo a respeito da coragem. Ao menos em grande medida é o tema principal. Mas há outras questões em seu entorno. Platão aborda aqui a questão da educação, a questão geral da concepção lógica das coisas que julgamos saber e até mesmo a questão a paralaxe cognitiva, ao abordar a relação entre o logos e a ergon.
Talvez seja um ótimo diálogo inicial para vermos o Sócrates da 'Apologia de Sócrates' em ação, demolindo as convicções e pretensa sabedoria e levantando a questão a busca pelo universal. O teste das definições é a abordagem clássica, na dialética socrática em ótimo tom! Mas lido em conjunto com o 'corpus platonicum' se torna ainda mais rico. É possível ver seu claro paralelo com as concepções de educação - e a crítica aos sofistas - no Protágoras. A própria discussão de Coragem é semelhante à deste diálogo também. E a questão da competência dos sofistas para a educação é perfeitamente complementada com a 'Apologia de Sócrates'. E a questão do ensino da virtue ecoa em tantos outros diálogos, como o início o Mênon.
Se há uma grande lição de moral, quase que vocacional, para os aspirantes a filósofos que pode ser resumida a partir do diálogo é que temos como que uma intuição imprecisa o que é a coragem, e temos que ser corajosos em manter nossa investigação e buscar dirimir nossas dúvidas, perseverando e enfrentando os problemas filosóficos espinhosos.
Moralistas, filósofos da educação e pedagogos, filósofos analíticos e lógicos, bem como qualquer um interessado na filosofia de Platão ou na figura de Sócrates serão amplamente beneficiados pela leitura deste pequeno mas poderoso diálogo.