Dois poemas da mesma fase, com igual estrutura – de "longo fôlego" – e já esgotados de Affonso Romano de Sant’Anna estão sendo reeditados pela Rocco. A grande fala do índio guarani perdido na história e outras derrotas e A catedral de Colônia, do fim dos anos 70 e início dos 80, falam de História, literatura, repressão política, cultura, América Latina, religião etc. – mas sobretudo do papel do poeta diante disso tudo. A reedição inclui ensaios sobre os poemas e sobre o autor, escritos por nomes como Tristão de Athayde e José Guilherme Merquior. "É impossível não morrer de carro / nas estradas do meu país. / Ou então se morre por outras vias e urros por / outros choques e murros / por outras armas e fomes. / – É cada vez mais difícil / a esquina de outro dia em meu país." Dono de uma cultura poética universal, de acordo com Tristão de Athayde, Affonso fez de seu poema "uma longa e patética interrogação em torno do poder e do alcance da poesia, não só como beleza formal, no sentido estético, mas como alcance formal no sentido epistemológico em que "forma significa aquilo que é". O jornalista e crítico Donald Schuller, em outro artigo que integra a edição da Rocco, viu, no livro de Affonso, ao lado do Poema sujo de Ferreira Gullar, a síntese maior do período de ditadura imposta pelo golpe de 64. "Que esta catedral sou eu / atroz-ateu / cristão-judeu / preto-plebeu / que esta catedral é o corpo vivo da História / e a história do próprio Eu." No fim do poema, a partir do Carnaval de Colônia, o autor imagina um grande desfile de figuras históricas em frente à Catedral: personagens como Hitler e Lampião num verdadeiro samba do crioulo doido. E lembra a lenda que dizia que a construção da catedral não podia terminar nunca, precisava estar em eterno recomeço. Como a História. E a poesia.

