"A cultura inculta" é obra de um professor norte-americano e todo o livro tem como enfoque principal a realidade estadunidense. Entretanto, isso não quer dizer que o conteúdo do livro é deveras limitado àquele território e o seu conteúdo, datado (o livro é da década de 80). Allan Bloom tece severas críticas à intelectualidade rasa dos norte-americanos em geral, sublinhando que não possuem o estofo intelectual dos europeus - e esse é um problema da origem daquele próprio povo.
O autor ressalta que os valores sobre os quais foi erigida a sua nação (tais como enunciavam os Founding Fathers) são racionalmente compreensíveis e, dessa forma, acessíveis para qualquer pessoa. Isso, em verdade, ao tempo em que traz uma grande vantagem no sentido de absorver tais valores, por outro lado parece ter sido desenvolvido erroneamente por não poucas pessoas: a democracia, a liberdade e a igualdade culminaram não somente em uma abertura ao outro, mas numa relativização de tudo. Isso desembocou, sobretudo a partir dos anos 60, em crise de valores, desnorteamento e o perigo de extinção da própria filosofia por aquelas bandas. E o que é irônico, segundo o autor, é que tal pensamento relativista leva a uma dominação "ocidental" até mesmo por parte daquele que crê que todas as culturas se equivalem.
A obra é dividida em três grandes partes: a primeira, trata dos estudantes; a segunda, do niilismo ao modelo americano; em terceiro lugar da universidade. É bastante curioso ver como Allan Bloom sublinha a pobreza intelectual dos estudantes que, mesmo na universidade, absorvem o relativismo e a proeminência do "aqui e agora" em lugar da reflexão e do trabalho intelectual. Infelizmente, segundo o autor, não poucos professores contribuíram para isso, sobretudo nos incendiários anos 60 - e sobre esse período, são alarmantes as descrições de verdadeiras "caça às bruxas" promovidas por movimentos estudantis, que comumente se utilizavam de violência física e até de armas. E tão chocante quanto isso foi a falta de indignação por parte do próprio corpo docente e de seus dirigentes (notadamente em Cornell), que aceitaram não de mau grado a perda da liberdade intelectual em favor de determinadas reivindicações. Ao final, mesmo os atores desse espetáculo nada grandioso teriam reconhecido que haviam ido "longe demais", mas aí já era tarde. Sobretudo para as Humanidades.
Bloom traça um interessante paralelo sobre a mentalidade norte-americana e o niilismo europeu (de herança nietzschiana), mas ressaltando que até mesmo esse niilismo é empobrecido na América do Norte: afinal, na Europa esse niilismo veio depois de uma tradição inteira. Nos EUA, foi importado para uma cultura que, por si só, não tinha estofo minimamente comparável ao dos países do outro lado do Atlântico.
Em geral, os argumentos de Bloom levam a uma reflexão acerca de nossa própria realidade (intelectual e universitária). Mas aqui e ali enxergam-se alguns exageros por parte do autor, como ao estabelecer uma relação de causa e efeito entre indivíduos de famílias desestruturadas e o baixo desempenho em filosofia e literatura, e ao final, quando afirma que "exatamente como na política a responsabilidade pelo destino da liberdade no mundo recaiu sobre o nosso regime, assim o destino da filosofia no mundo recaiu sobre as nossas universidades". Questionável.
Sobre a edição portuguesa: é irritante a quantidade de erros no decorrer da tradução. Pontuações totalmente fora do contexto e que chegam a comprometer o andamento da leitura - e isso em número absurdamente alto. Sem contar com erros de ortografia grotescos, de falta de atenção mesmo - inclusive sobre nomes próprios (Weber e Nietzsche, por exemplo). A edição pecou por uma melhor revisão; até o nome do próprio autor é grafado erroneamente em uma página ("Alan").