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    Um erro emocional -

    Cristovão Tezza

    Record
    2010
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9788501088444
    Português Brasileiro
    3.5
    140 avaliações
    Leram241Lendo16Querem170Relendo0Abandonos8Resenhas13
    Favoritos8Desejados170Avaliaram140

    “(…) o verdadeiro prazer, o que dá sentido à vida, é a conquista, quanto mais difícil melhor; e assim que temos a presa diante de nós, um belo pedaço de pizza, vamos em busca de outra, e Beatriz sorriu da comparação idiota, mas o que estou imaginando agora, ela ponderou, foi o que eu li em alguma revista tola para mulheres e não o que posso descobrir desse escritor quem sabe afundado numa pequena crise de timidez, a noventa centímetros do meu rosto…” Paulo e Beatriz. Um escritor e sua leitora. Tudo começa com uma declaração, uma frase truncada que diz: “cometi um erro emocional”. O diálogo travado a partir dessa confissão insinua, mais do que de fato revela, um mergulho pelas lembranças – sejam as frágeis situações familiares, sejam os fracassados relacionamentos amorosos – que habitam a mente dos personagens. Nas poucas palavras trocadas entre cálices de vinho e goles de chá, sente-se a presença do não dito e daquilo que ficou por dizer. Aos 42 anos mal vividos, o escritor sonha ter encontrado enfim uma mulher disposta a conduzi-lo. E Beatriz, uma desconhecida, agora tem diante de si o próprio autor que aprendera a amar pelos livros, num misto de admiração, idealização e, sobretudo, falta de intimidade. Por meio da dicção precisa e arrebatadora de Tezza, somos convidados a assistir à conversa dos personagens de um ponto de vista privilegiado. Movidos pelo desejo, mas paralisados diante do medo, Paulo e Beatriz se tornam cúmplices. Nos intervalos de silêncio, a esgrima dos sentimentos tateia em busca da palavra que redime: “O amor é um sentimento necessariamente povoado de sombras. Ou será a paixão que é sombria?” “O texto de Tezza é emotivo, mas não é daqueles que somente apelam para a emoção (…). O que há ali é a literatura madura de um escritor talentoso, sem dúvida um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos.” Leandro Oliveira, Le monde diplomatique “(…) o jogo infindável de máscaras, é como se poderia definir o universo movediço de Cristovão Tezza. Num estilo extraordinariamente eloquente e atento a derramamentos, ergue-se com seriedade e convicção de que à literatura compete o resgate de quem somos, para além do bem e do mal.” Lênia Márcia Mongelli, O Estado de S. Paulo “O mundo de Tezza é habitado por personagens que buscam permanentemente uma porta de saída. (…) o que emerge dessas tramas às vezes intricadas são justamente os fantasmas e as sombras – fazendo de Cristovão Tezza um escritor que, sem cair nos artificialismos da prosa metalinguística, mostra como o mundo da ficção pode corrigir e superar a estreiteza do mundo real.” Manuel da Costa Pinto, Literatura brasileira hoje (Publifolha) “Cristovão Tezza é o crítico-escritor responsável por elevar o romance brasileiro a um novo patamar.” Rosane Pavam, Carta Capital

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    Resenhas (13)Ver mais
    Alexandre Figueiredo picture
    Alexandre Figueiredo08/10/2021Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    O destino impreciso dos encontros

    Eu acredito ser consenso entre leitores o fato de que um bom livro é aquele que gera, de alguma maneira, uma surpresa. E, em geral, essa surpresa pode vir de duas maneiras: pela história ou pelo formato. Portanto, um bom livro deve se sustentar ou pela narrativa ou pela linguagem, sendo a união entre esses dois elementos o mundo ideal. “Um erro emocional”, romance lançado logo após o estrondoso sucesso - em termos de literatura nacional, claro - de “O filho eterno”, faz parte da segunda turma. Um enredo mais simples seria impossível: Beatriz recebe, à noite, uma batida em sua porta do escritor Paulo Donetti e a primeira frase dele ao vê-la é “cometi um erro emocional”. Com esse gancho inicial convidativo, Cristovão Tezza mostra, ao longo das páginas seguintes, toda a sua habilidade enquanto ficcionista. Com uma técnica notável, o autor suspende o tempo real (dos leitores) e o irreal (da narrativa) para apresentar suas personagens. A verdade é que o motivo pelo qual Paulo Donetti apareceu à porta de Beatriz - que é fã do escritor - deixa o primeiro plano para dar lugar às inquietações da dupla. Entre idas e vindas, lembranças e percepções, acabamos conhecendo mais sobre essas duas pessoas comuns. Paulo Donetti é um escritor paulista de 42 anos em crise - um clichê clássico! - que tem traumas da influência do pai (Freud deu um alô) em sua adolescência, traz consigo a amarga sensação do fracasso por acompanhar a ascensão de seu pupilo, o “prepotente” Cássio, tornar-se o sucesso que ele não se tornou e viveu um casamento frustrado com Antônia. Beatriz é uma jovem curitibana, profissional do mundo editorial, que carrega em sua vida marcas de uma tragédia familiar e de uma vida amorosa marcada por traições (dela e do ex-marido). Essas duas almas perdidas acabam se conhecendo um dia antes do desenrolar do romance, em um jantar entre amigos, e acompanhamos o eixo principal da narrativa através de uma conversa de Beatriz com uma amiga. O interessante disso tudo é que todas essas informações são reveladas aos leitores mas não às personagens, que sabem muito pouco entre si - afinal, os diálogos presentes no romance não ocupariam nem quatro ou cinco páginas do livro. É clara como água cristalina a montanha de recursos metalinguísticos e metáforas sobre a relação entre autor e leitor. Este é, sem dúvidas, um livro sobre literatura. Apesar de reconhecer que este tipo de romance não deve agradar a maioria, devido ao fluxo constante de pensamentos e os raros diálogos, eu curti o livro. Aliás, ele desfez em mim um pouco do ranço que ainda resta em relação ao famoso livro do autor, “O filho eterno”, que eu não achei - à época que li, na minha adolescência - grande coisa. Aqui, o desafio me pareceu mais ambicioso e eu gosto disso. Eu gosto de ser surpreendido, mesmo que a surpresa se passe em poucas horas durante uma noite em Curitiba entre taças de vinho, pizza e chá. Como o destino dos encontros é impreciso, todos nós sabemos disso, Tezza deixa o final aberto para que cada leitor consiga resolver da melhor maneira o que acontece entre os dois após tímidas e atabalhoadas investidas. Mas, se assim como eu vocês também quiserem ler mais sobre o universo da dupla, vale conferir “Beatriz”, livro de contos em que Tezza dá, de certa maneira, mais informações sobre Beatriz e Paulo Donetti e expande o próprio universo.

    65 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.5 / 140
    • 5 estrelas19%
    • 4 estrelas29%
    • 3 estrelas37%
    • 2 estrelas11%
    • 1 estrelas4%
    Cristovão Tezza profile picture

    Cristovão Tezza

    Embora tenha nascido em Lages, Cristovão Tezza mudou-se para Curitiba, no Paraná, com dez anos de idade. Esta cidade é cenário de boa parte de sua literatura, em que personagens visitam ruas e pontos turísticos. Tezza fez teatro, foi da marinha mercante, trabalhador ilegal na Europa e ainda relojoeiro. Já era escritor bem jovem: aos treze anos criou seu primeiro livro, designado por ele mesmo como “muito ruim”. Publicou dez romances. Uma das marcas de seu texto é a presença de mais de um narrador: em "Trapo", por exemplo, vemos a história do ponto de vista do professor Manoel, que estuda o poeta Trapo, e paralelamente do ponto de vista do poeta, através de seus poemas. Em 2003, Tezza publicou um ensaio sobre Mikhail Bakhtin, que era, na verdade, sua tese de doutorado. Doutor em Literatura Brasileira, Tezza é professor de Linguística na Universidade Federal do Paraná. Em algumas declarações ele afirma que “só uns quatro ou cinco escritores brasileiros poderiam viver só dos livros”, e por esse motivo é professor. Ganhou o prêmio da Academia Brasileira de Letras de melhor romance brasileiro de 2004, pelo seu livro “O fotógrafo”. Foi considerado pela Revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009.

    47 Livros
    127 Seguidores
    Santa Catarina, Brasil

    Cristovão Tezza