Vigarista Jorge
Nesse primeiro contato com Jorge Mautner, as expectativas eram ambíguas. Na introdução, tudo é ficção e até um pouco exagerado, abusando da liberdade do criativo. Houve pedaços na narrativa em que imaginei que certas informações poderiam corresponder a sua vida pessoal e, evidentemente, uma amostra do espírito poético e revolucionário do Maultner dentro dessa introdução ficcional: a arte ligada à revolução já se mostra um tópico recorrente na primeira parte do livro. Ao mesmo tempo que certas passagens soam como um devaneio, também são carregadas de sentido e sanidade: opiniões formadas e, muitas vezes, bem desenvolvidas dentro de certa incoerência. Como, por exemplo, Jorge se estende diversas vezes entre a relação arte x trabalho e as visões da sociedade com a sua profissão, colocando-se como resistência ao preconceito, mas também incerto em determinado momento da narrativa. Pelo fim, a temática se torna quase exclusiva da política, mostrando, talvez, anseios de Jorge de ser "ativo" na luta comunista, colaborando não só por meio de palavras, mas "pegando na enxada" (insegurança citada em seu documentário, o "comunista covarde"). Partindo para o capítulo 1, a obra se mostra como autoficção: diálogos, cartas e memórias pessoais de Jorge são postos em cena. Como diria o próprio autor: "minha literatura é vivencial". As cartas são melancólicas, românticas e esperançosas, da mesma forma que as opiniões inseridas se comportam nessa parte do livro. Após muitas declarações de amor a Ruth Mendes e considerações pessoais do autor, a aparição de James Dean nos recorda do teor ficcional, mas sem perder as questões de Jorge sobre sua posição como escritor e revolucionário. Personagens se misturam as suas aspirações, e nos perdemos entre o Jorge e o cenário da sua angústia e liberdade artística. Por fim, entramos no desenvolvimento do que seria o Kaos de Mautner, abrindo espaço para a revolução na ótica do autor, com um toque místico. A arte, a liberdade, o amor e o marxismo são partes dessa revolução, que retrata perfeitamente a contracultura dos anos 60.
