Para melhor ilustrar o posicionamento de Paul Ricoeur em face do Mal, seria um bom começo de conversa trazer a tona a figura desse grande intelectual francês apresentando-se, no final da década de 1980, como um liberal, porém frisando que existe uma grande diferença entre o liberalismo político que prega os ideais de liberdade e igualdade e o liberalismo econômico, no qual prevalece a lei do mais forte. Assim, Ricoeur, ao longo de sua vida, permaneceu ativo em várias frentes de defesa da ecologia, da bioética, da justiça social, da previdência social, contra a guerra e a tortura. Essa postura militante condiz com a coerência interna de sua vasta produção intelectual, unida pelo fio condutor da reflexão sobre a responsabilidade do agir. Essa responsabilidade seria o reconhecimento de que a ação realizada por um “eu” deve levar em conta a diferença e a alteridade do “outro”.
Fruto de uma conferência pronunciada na Faculdade de Teologia de Lausanne, em 1985, subordinada ao título O mal: um desafio à teologia e à filosofia, Paul Ricoeur postula que, nas sociedades modernas, uma das principais causas do sofrimento físico e moral dos indivíduos é desencadeada pela “violência exercida sobre o homem pelo homem: em verdade, fazer o mal é sempre, de modo direto ou indireto, prejudicar outrem, logo, é fazê-lo sofrer”