Espada e Magia, o primeiro volume da série Sagas da editora Argonautas surpreende o leitor. Primeiramente a arte do quadrinista estadunidense Nate Milliner. Representa a primeira história (Lágrimas do Anjo da Morte), é detalhada e lembra as capas de histórias em quadrinhos fantásticos. E essa é a ideia deste volume de Sagas: homenagear as antigas revistas pulps que mais tarde originaram a literatura intitulada Sword and Sorcery.
Roberto de Sousa Causo explica tudo isso num resumo de alta qualidade no prefácio. Mesmo quem não conhece esse estilo de história é bem situado no assunto. O prefácio por si só já é valioso.
Eu, particularmente amo o gênero e sempre fui uma menina apaixonada por quadrinhos, inclusive leitora de Conan - talvez o herói mais famoso na área e uma das inspirações para este livro, como consta na dedicatória de Duda Falcão no meu exemplar: "Muito deste livro foi inspirado na Espada Selvagem de Conan!". (citação também presente no prefácio).
Existe uma mini biografia de cada um dos responsáveis de Espada e Magia, além de pequenas notas no rodapé para explicar determinadas palavras.
O livro é em formato de bolso, leve e prático para ser lido em qualquer lugar. Porém, não menospreze o livro por seu tamanho. As histórias são grandiosas.
O livro é dividido em quatro noveletas (eu não poderia caracterizar os textos como contos, não sei se estou certa) muito bem escritas e apesar de terem sido compostas por escritores diferentes, existe uma coesão no estilo que é totalmente fiel à fantasia heroica. Apesar de semelhantes, possuem suas peculiaridades, personagens distintos e mundos próprios. Nem chega perto de ser repetitivo. Todas as histórias são excelentes. Cada autor conseguiu criar um mundo completo e rico, sem deixar o leitor se perder. Cada uma das histórias poderia originar várias outras dentro deste mesmo cenário, com as mesmas ou novas personagens.
Os detalhes do gênero estão todos presentes. A magia e feitiçaria predominam com magos e feiticeiros como seus representantes fiéis. Os ambientes são exóticos e curiosos, abrigando locais muito interessantes, como uma cidade de ladrões, por exemplo.
Os guerreiros e heróis (ou heroínas!) possuem espírito aventureiro e coragem, e portam espadas, machados e outras armas medievais. Objetos e artefatos poderosos estão na mira da cobiça e trazem perigo. E até mesmo os animais são afetados pela força sobrenatural que vive nos mundos da fantasia épica, que abriga feras terríveis e assustadoras.
A qualquer momento um ser obscuro ou sobrenatural pode surgir nas páginas dessas histórias. Os guerreiros possuem sempre uma missão quase impossível a ser concretizada, com muitos obstáculos no caminho, sejam outros habilidosos lutadores manejando o aço afiado, bruxos dotados das mais inacreditáveis magias, monstros malignos ou seres sombrios inomináveis. Piratas, mercenários, encantamentos, fortalezas impenetráveis, tesouros, traições, reviravoltas e muito, muito sangue.
Batalhas fantásticas e arrepiantes. Membros amputados e feras destruídas sob espadas incansáveis. Forças ocultas contra força bruta, experiência e sagacidade.
Em Lágrimas do Anjo da Morte acompanhamos o mercenário assassino Anrath, o Cão Negro, nascido gaélico e criado por vikings numa jornada para cumprir uma promessa feita a um estranho ser. César Alcázar traz uma história intensa e instigante, dotada de ótima mitologia. Gostei muito do Poço de Cíocal.
Depois com A Cidadela de Elan, Georgette Silen cria uma aventura misteriosa da guerreira e princesa Kira, uma personagem feminina muito forte e inabalável. Ela precisa penetrar e sobreviver em meio a uma cidade de ladrões. Confesso que descobri o segredo rapidamente, mas em nada isso afetou minha leitura. Me lembrei de algumas histórias antigas de Marion Zimmer Bradley, estilo semelhante.
Rober Pinheiro é o próximo autor com sua história A Dama da Casa de Wassir, a mais detalhada do livro. Um universo ficcional incrivelmente bem construído, não apenas em personagens e cenários, mas também em suas tradições na cultura e religião. Atha'ny precisa encarar e vencer uma série de desafios para se casar com uma princesa e garantir assim uma aliança fundamental para sua tribo. Aysha me surpreendeu.
Por último vem Sem Lembranças Daquele Inverno, de Duda Falcão. Atreil é um mercenário digno de inúmeras e surpreendentes vitórias - tudo por um grandioso pagamento, claro. Nas Terras de Lhu ele precisa completar mais uma missão. Esta aventura faz o leitor perder o fôlego perante às etapas ultrapassadas pelo protagonista. O poder principal da feiticeira é ótimo!
Resumindo, o livro é perfeito para quem gosta de fantasia heroica! Um orgulho ler litfan nacional de alta qualidade.
Trechos:
"Anrath girou o corpo e cortou um deles ao meio. Com o mesmo golpe que liquidara o primeiro oponente, defendeu o ataque do segundo. Sangue jorrava outra vez sobre a areia úmida, e apenas quatro soldados restavam de pé." Lágrimas do Anjo da Morte, César Alcázar.
"Olhos curiosos e temerosos observavam, ainda com maior atenção, a guerreira das terras verdes, comose enxergassem algo além das curvas sob o manto." A Cidadela de Elan, Georgetter Silen.
"Como ditava o Código da Espada, aquela última luta, como as seis que a precederam, era somente sua e, como tal, ele se despediu dos seis guerreiros que formavam sua escolta e aguardou no centro do salão." A Dama da Casa de Wassir, Rober Pinheiro.
"Atreil sentia aquele bafo tão próximo que se fosse uma pessoa qualquer não teria coragem suficiente para o movimento suicida que estava pronto para realizar." Sem Lembranças Daquele Inverno, Duda Falcão.