'A extinção do desejo' é um romance que trata das consequências pessoais e sociais advindas da relação humana com o dinheiro. O protagonista leciona numa escola particular cujos alunos são ricos e seus objetivos são traçados a partir da presença ou ausência do dinheiro. Boylan observa e critica implicitamente uma sociedade em que os bens materiais e o consumismo se sobrepõem ao caráter. A partir da chegada de uma herança, os leitores têm a chance de se envolver no conflito interno de Michael O'Meara, que se pergunta quais mudanças reais o dinheiro pode trazer. A notícia do espólio se propaga pela vizinhança e O'Meara torna-se um ícone - para muitos, incluindo sua ex-esposa, é uma nova fonte de renda. Já para os seus alunos, ele se transforma, enfim, em uma 'pessoa', na medida em que está financeiramente na mesma situação deles.
A Extinção do Desejo - Uma História de Iluminação
Michael Boylan
A extinção do desejo: uma história de iluminação. Michael Boylan. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2010. Original: The extinction of desire: a tale of enlightenment (2007). A coisa mais importante que o leitor desse livro pode fazer é ignorar o prólogo, se só retornar a ele, se desejar, no final. O prólogo, cheio de menções a eventos da história e de conceitos não familiares, é árido à leitura, enquanto a narrativa da história em si é muito tranquila, fácil de ler, mesmo que traga embutida estes mesmos conceitos. Trata-se de um romance filosófico, em que o personagem se vê atingido por eventos que o levam à reflexões sobre sentido e existência. Michael O'Meara era um professor de História do ensino médio, em grande medida conformado com uma perspectiva medíocre sobre si mesmo e sobre a vida que levava. Há uma certa complacência sobre si mesmo, sua situação limite onde mal conseguia pagar as próprias contas, e a percepção de um mundo organizado sobre a desigualdade. De repente Michael O'Meara se vê em um grande luto que consistia na quebra com o seu passado, com a morte do pai, e com o seu futuro, com o afastamento da mulher que amava. Ele fica sozinho, avulso, nenhum vínculo afetivo, social, seus trabalhos não traziam alegria, visando meramente sua subsistência. É neste contexto em que recebe uma herança de 1 milhão de dólares, a partir do que as pessoas em sua vida se transformam e acontecimentos inesperados tomam lugar. O'Meara é um personagem que deixa se levar pelos acontecimentos, vão experimentando todas as coisas que aparecem e refletindo sobre si e sobre o mundo. A iluminação mencionada no título do livro não parte de uma prática de meditação profunda, mas desse movimento de soltar as amarras do barco e viver a maré. Em certa altura me lembrou Larry Darnell, do livro de Somerset Maugham, O fio da navalha, mas somente nessa construção andarilha da busca espiritual. Porque Darnell faz o caminho contrário ao de OMeara, ele abandona status e dinheiro em sua jornada, apesar de também partir de um trauma. OMeara só consegue sair da apatia quando cai em seu colo essa chance de mudar seu status. O dinheiro lhe trouxe possibilidades de fazer escolhas, ainda que na maior parte do tempo não soubesse o que estava fazendo. Esse é um ponto fraco do personagem, que perde em credibilidade quando é pintado com tintas de uma ingenuidade que não condiz com um norte-americano do século XX. Sempre tenho medo dessas reflexões mais filosóficas em formato de romance, ainda mais com inserções de conceitos budistas e poesia, mas isso não prejudicou minha leitura e contribuiu para a discussão, mesmo que a narrativa ganhasse uma característica mais viajandona e se descaracterizasse um pouco. É interessante ver o personagem lidando com as impermanências, a velhice, a doença, a morte, a destruição nas duas pontas do desejo, quando é demais e quando é ausente. O que te move e o que te paralisa. A história perde um pouco na medida em que se centra no desejo enquanto posse material, no dinheiro propriamente dito, mas é compreensível dado a origem norte-americana do autor, um professor de filosofia e estudos religiosos, é algo que passa pela construção de perspectiva de mundo daquele povo. Ainda assim traz boas reflexões.
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