“A arte tem seu próprio significado como criação de Deus – ela não precisa de justificativa. Sua justificativa é ser uma possibilidade dada por Deus.”
Expressar muito com poucas palavras! Dizer algo complexo e profundo de forma simples e clara! Essas são algumas das características marcantes da obra “A arte não precisa de justificativa” de Hans R. Rookmaaker (1922-1977), fundador e professor do departamento de história da arte da Universidade Livre de Amsterdã, eminente historiador e crítico cultural do século XX.
O livro é dividido em quatro breves capítulos. No primeiro deles, “O pano de fundo de um dilema”, o autor faz uma breve retrospectiva histórica, demonstrando como a arte sofreu profundas alterações através dos tempos. A arte, que era definida em termos de aplicação de técnicas adequadas nos materiais corretos, transformou-se em algo abstrato, desconectado da realidade e – o que parece irônico – extremamente religioso. Todo esse processo caminhou de mãos dadas à tentativa de retirar a influência da religião institucional sobre as mais variadas áreas da vida humana.
“A religião não era problema, desde que ela fosse de ordem puramente particular e não interferisse nas coisas importantes deste mundo, como a ciência, a filosofia, a erudição e as belas artes.” (p. 15)
E onde estavam os cristãos quando essa perspectiva difundiu-se e invadiu, inclusive, as artes? Essa questão é levantada e respondida no segundo capítulo, “A resposta da Igreja”, no qual o autor analisa a razão do afastamento entre o cristianismo e a cultura e as consequências advindas deste, apresentando bases sólidas para o envolvimento do cristão com a realidade criada.
“Temos crido no poder da razão e relegado qualquer crença em Deus a uma esfera subjetiva e estritamente pessoal. Deus é bom em salvar almas, mas o temos mantido fora de nossas grandes decisões sobre educação, ciência, política etc. Temos de compreender as formas de pensamento da história intelectual ocidental e suas consequências – o mundo reduzido, o relativismo, o neutralismo, a neutralidade de valores que são acristãos, quando não são anticristãos.” (p. 32)
No capítulo três, “A tarefa do artista cristão”, Rookmaaker rompe com diversos paradigmas atuais da arte “gospel”. A declaração “trabalhar como cristão não é fazer uma arte e adicionar um complemento, o elemento cristão” contrasta com muito do que temos visto na música cristã contemporânea brasileira. Em contraposição, o autor defende – partindo de uma perspectiva que confronta qualquer noção de neutralidade da ação do homem – que o artista cristão necessariamente irá refletir o que o define enquanto ser humano: sua criação a imagem e semelhança de Deus, queda no pecado e redenção por meio de Jesus Cristo, ou seja, o fato dele ser cristão.
“Nós não somos humanos dotados de um complemento chamado cristianismo. Não, nossa humanidade reage ao mudo inteiro e à Palavra de Deus de uma maneira específica em relação à nossa personalidade.” (p. 40)
No último capítulo, “Diretrizes aos artistas”, o tema que dá nome ao livro é tratado com maior amplitude. Outros tópicos também são abordados, como: arte e realidade, arte e sociedade, normas de arte, norma e gosto, problemas de arte e estilo, fama e anonimato, as qualidades do artista e o caminho do artista cristão. O autor defende que a arte possui valor intrínseco, pelo simples fato de ser uma possibilidade dada por Deus. Portanto, não necessita justificar-se por meio das funções que eventualmente exerça, por mais importantes que sejam. Rookmaaker constantemente surpreende o leitor com perspectivas que diferem radicalmente do que parece ser o “senso comum” de nosso tempo.
“A arte não é neutra. Podemos e devemos julgar seu conteúdo, seu significado e a qualidade do entendimento acerca da realidade que está incorporada nela.” (p. 51)
Esse breve resumo apresenta algum dos elementos centrais de uma das últimas obras escritas por Hans R. Rookmaaker. Este livro traduz perfeitamente a concepção de que conteúdos profundos e fundamentais podem ser tratados de forma simples, curta (apenas 76 páginas) e genial. Importante ressalvar que o autor não se preocupa em esgotar todas as questões levantadas, ele apenas as apresenta e, como que abrindo para o leitor um novo mundo e o convidando a entrar e investigar mais acerca da arte e seus desdobramentos, demonstra o que significa aplicar, viver e enxergar o mundo a partir de uma cosmovisão cristã.
ROOKMAAKER, H. R.. A arte não precisa de justificativa. Viçosa, MG: Ultimato, 2010.
*Referência do título: trecho da música "Rookmaaker" da banda "Palavrantiga".
**Texto originalmente publicado em umpipr.wordpress.com.br e fcaue.wordpress.com.br