A internet e suas inúmeras possibilidades de interação têm servido de pano de fundo para a ficção inúmeras vezes, mas raramente é explorada como item chave de uma narrativa. Antes, serve apenas como mero suporte. Em <i>Estrangeira</i> (Ed. Nova Fronteira), 25º livro da escritora Sonia Rodrigues, o uso da internet, porém, é a metáfora para as redes – no sentido de laços de parentesco, afeto e/ou amizade -, que unem e ao mesmo tempo isolam os personagens deste romance agridoce e poético.
Em busca de exorcizar a dor de uma separação, a protagonista é Eilenora, uma designer gráfica de 29 anos, que mantém um blog fechado ao acesso público, onde narra o seu dia a dia para um único leitor: o ex-namorado. É lá também que ela conta a ele sobre a grafic novel onde pretende esmiuçar as frustrações do relacionamento dos dois e desabafa as agruras vividas na tentativa de firmar-se na carreira.
Afundada nos problemas pessoais e afetivos, Eilenora é levada a enxergar a própria vida por outro ângulo quando descobre alguns disquetes em uma antiga casa de veraneio, que seriam o diário eletrônico de sua mãe, morta há 11 anos; e quando, por meio de um site de relacionamentos que frequenta, conhece uma franco-marroquina que lhe conta a malfadada história de amor de sua tataravó, imigrante irlandesa de quem herda o exótico nome de batismo.
Montado o cenário e apresentados seus principais atores, Sonia Rodrigues, que além de escritora, é jornalista e especialista em criação de redes sociais, explora o universo on line no que ele tem de humano e não no aspecto tecnológico. Além de manter o blog, sua protagonista é hard user (usuária avançada) de internet e está inserida no contexto em que a alta tecnologia funciona como o fio invisível que diminui a sensação de distância entre as pessoas. Só que, pela idade, Eilenora também pertence à geração dos migrantes digitais e por isso, traz outras referências culturais. Seu uso do computador, da internet e das redes é marcado por uma profunda necessidade de contato físico, que extrapola os limites da tela.
O tema central da obra, o amor, é universal e ajuda a equilibrar o livro entre o romance e a reflexão sobre o uso massivo de redes de relacionamento. As digressões de Eilenora sobre a necessidade de contato dos seres humanos e o grau de exposição na internet em busca da compreensão dos seus iguais, aproveita a larga experiência de Sonia Rodrigues neste meio. Mas embora traga questões quase acadêmicas sobre temas como voyerismo e cyberbulling, a linguagem informal da personagem dão a leveza necessária a uma leitura prazerosa, mas daquele tipo que faz pensar.
O pano de fundo da história é a solidão vivida pela tataravó irlandesa, pela mãe e agora por Eleinora, como uma maldição de família. Mas também pelas amigas da protagonista, pela tia madura que está recém-divorciada e até pelo ex-namorado, descrito por ela como um geek sem alma. O uso das redes sociais - e o encurtamento das distâncias -, proporcionado pela internet não serve de atenuante aos corações partidos que navegam em busca de um simulacro de calor humano. Ao contrário, o abandono dos personagens é palpável tanto no mundo off quanto no on line. Estrangeira não chega a ser uma obra pessimista, mas flerta com aquele desencanto típico da poética rodrigueana. Não à toa, a autora é filha do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues.
Através das pouco menos de 200 páginas do livro, Eleinora envereda pelo caminho tortuoso da auto-descoberta, mas precisará também descobrir a auto-indulgência e a capacidade de perdoar seus ex-desafetos. Narrada em primeira pessoa, a história alterna trechos em on, com ela contando a própria história, e em off, quando lê os diários da mãe ou investiga a antepassada irlandesa.
O tom confessional e o formato, como se os leitores fossem o ex-namorado que é o único leitor do blog de Eilenora, cria uma intimidade e uma grande empatia com essa heroína às avessas que não parece saída de um romance. Não admira que na Flip de 2007, durante um chat promovido pela Bravo On Line, a escritora tenha dito que não consegue conceber ficções que não sejam autobiográficas. O quê de Sonia Rodrigues existe em Eilenora além do trânsito livre pela internet, só a autora deve saber, mas sua protagonista é de fato biográfica: lembra as blogueiras que expõem a própria alma em palavras, para o deleite de públicos seletos ou de quem o Google jogar em suas páginas.
*<i>A resenha também foi publicada na edição do dia 29/12/2010 do Caderno 2+, do jornal A TARDE, em Salvador-BA</i>