Às vezes, você pode comprar um livro por um motivo e durante a leitura descobrir que é diferente do que você pensava, isso pode ser bom ou ruim. No caso do livro de Stallybrass foi um pouco assim, a diferença é que eu esperava que fosse literatura, não ensaios de um professor de humanidades e literatura comparada. Acho que cheguei a um dos limites da confusão que se pode fazer sobre um tema de um livro, embora eu culpe o resumo que a Autêntica fez... ou minha desatenção devido a tantos livros que estavam em volta, afinal era uma feira de livro. Pelo menos foi positivo, afinal é interessante como Stallybrass analisa e escreve sobre diferentes assuntos. O livro é divido em três ensaios, um sobre a relação da memória e roupas, o outro sobre a relação do capitalismo com as roupas e, por último, sobre a representação do andar em diferentes peças.
O primeiro ensaio traz uma questão que é pouco pensada, as roupas daqueles que morrem. Não só como elas são forma de memória como também herança de família e aqueles que as recebem lidam com ela. Interessante como a roupa leva consigo a marca daqueles que a usaram, como a forma ou o cheiro. Stallybrass afirma, por experiência própria, que quando se veste a roupa que antes era um de outro você leva junto a memória da pessoa. Também considerei importante o pensamento de como companheiros lidam com isso, há alguns que tentam se livrar o mais rápido possível para não ter a lembrança da perda enquanto outros guardam algumas peças como forma de lembrança. Cada um tem a sua forma de lidar com a dor, e doeu um pouco ver como o armário vazio do pai de Philip Roth ainda lembrava da perda da companheira de 55 anos.
O segundo ensaio, que dá nome ao livro, é uma discussão sobre a transformação das roupas em mercadoria. Acompanhamos a história das roupas no século XIX, principalmente o casaco de Marx. Importante ver como a roupa era uma marca de distinção, já que Marx somente poderia ir ao Museu Britânico para trabalhar se o seu casaco não estivesse penhorado. Peter trabalha como distinções diferentes de hoje, antigamente cores e certas tecidos distinguiam classes sociais. Ele também vai por um caminho diferente e acha que hoje se tira o valor dos objetivos e assim os desvaloriza. Pergunta por que o desprezo as coisas? Usa o caso dos prisioneiros que são despojados de sua roupa como forma de despojar do que são. É interessante ver como ele associa estudos acadêmicos com a vida daqueles que os escrevem como também de uma forma mais direta com a sociedade que vivem.
O último ensaio trata sobre a noção de caminhar em diferentes peças clássicas. Interessante ver como um estudioso de literatura comparada racionaliza sobre peças de diferentes séculos, como Édipo e Lear. A forma que ele compara como é o caminhar para cada um dos personagens e a sua importância e sua época. Édipo não pode caminhar direito pela mutilação que sofreu, enquanto Lear não precisa andar pelo poder que tem. Stallybrass levanta um importante ponto sobre a dificuldade de se caminhar e como desvalorizamos esse ato quando conseguimos realizar naturalmente depois de aprendido. Isso não vale somente para o andar, muitas atitudes que tomamos são tão naturalizadas em nossas vidas que não percebemos mais como devemos valorizá-las.
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