Este livro é baseado em fatos reais. No início dos anos 80 do século passado, um grupo de agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI) é enviado às região do continente africano chamada Chifre da África para uma operação secreta. Seu objetivo é prospectar urânio para o programa nuclear de Saddam Hussein. Um agente do Mossad, serviço secreto israelense, baseado na Somália, faz de tudo para impedir o plano dos brasileiros. Ao mesmo tempo na Etiópia, uma missão religiosa tenta desesperadamente retirar daquele país mais de 200 órfãos de uma guerra que ainda deixava marcas naquela região do planeta. A responsável pleo grupo de crianças é uma mulher que tem um passado misterioso, que antecede uma união inusitada entre todos os personagens dessa delicada trama internacional. Os fatos que inspiraram esse livro culminaram com a morte de um jornalista no Brasil, que ameaçara contar toda a verdade da participação brasileira no programa nuclear iraquiano. Isso foi verdade.
Fronteira -
Robinson Pereira
Trama intrincada em terra africana
RENÊ MÜLLER A ação se desenrola em solo africano. Na Somália e na Etiópia, especificamente, no início dos 1980. Um cenário de fome e pobreza. E de violência, consequência natural das privações e da guerra entre as nações. Fronteira, novo romance do escritor e jornalista Robinson Pereira, mestre em Teoria Literária pela Universidade Federal ed Santa Catarina (UFSC), é uma spy story. Mesmo acontecendo por ali, longe de cenários e logística sofisticados como os que acompanham James Bond ou Jason Bourne. O autor sempre foi fã declarado de autores como Tom Clancy ou Ian Flemming. Nem bem era adolescente quando assistiu no cinema O Espião que me Amava. O filme sobre 007 mexeu com sua cabeça, como mexiam, quando criança, as histórias do Mickey – apenas aquelas em que o camundongo virava um detetive. Como filho de militar, Pereira também conheceu melhor o imaginário da farda e da hierarquia, que quase sempre foi o ponto de partida para serviços secretos do mundo todo. Ao deixar a Academia Militar das Agulhas Negras e cursar Comunicação, deparou-se com Rede de Intrigas, livro escrito por Nelson Lopes, jornalista brasileiro especialista em indústria bélica brasileira naquela época. O livro era baseado em fatos reais investigados por Lopes. Robinson ficou impressionado com a história da cooperação entre o Brasil e Iraque. Clandestinamente, o Brasil estava fornecendo urânio para o programa nuclear de Saddam Hussein. Uma empresa de aerofotogrametria foi criada e patrocinada pelo Serviço Nacional de Informações (SNI, o serviço secreto brasileiro) para operar em terras africanas. Numa ocasião, um avião que levava técnicos brasileiros em busca de urânio e riquezas minerais na Somália foi metralhado pela aviação etiopense. A operação é o ponto em torno do qual foi estruturado esse romance de espionagem, que coloca em confronto, em pleno “Chifre” da África, agentes do SNI, Mossad, KGB e CIA. A guerra entre Somália e Etiópia apresenta o quarto protagonista do livro: uma missionária que tenta, a todo custo, impedir que um grupo de quase 250 crianças, órfãs de guerra, sejam massacradas por guerrilheiros em busca de vingança. Curiosa foi a escolha de Pereira para narrar a aventura. Deixou o ritmo vertiginoso, direto, a linguagem seca e objetiva adotada em praticamente todos os livros de espionagem para escrever sempre em primeira pessoa, mas utilizando pontos de vista de oito personagens diferentes. Então, além da ação, o leitor se depara também com a consciência desses personagens. Nem sempre essa combinação de tiroteios e perseguições com culpa, coragem e ideal funciona. Algumas vezes, ritmo e estilo se alteram de maneira abrupta, tornando a leitura desinteressante. Há também determinados lugares-comuns. Em quase todos os seus capítulos, porém, Fronteira consegue deixar que a atividade e a inteligência (ou a estupidez) desses personagens se sobreponham às suas ruminações. Quando entrelaçam-se todas as subtramas em uma decisiva batalha campal, é impossível fechar o livro sem saber onde todos esses impasses irão terminar. Fora impressão, colagem e encadernação, todo o trabalho de materializar o livro foi do autor. O excesso de responsabilidades explica algumas pequenas falhas de revisão, que não comprometem qualidades como a detalhada pesquisa realizada para compor situações e cenários do romance, e a paixão com que Fronteira foi escrito – a paixão do autor pelo tema faísca nas páginas, quase que literalmente. (Diário Catarinense, 5/10/2010)
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