Há os que não gostam de ópera, mas gostam de Luciano Pavarotti. É um fenômeno de sedução parecido com o do bailarino Rudolf Nureyev, idolatrado por muitos que jamais o viram dançar. Ou de Maria Callas, amada mesmo por aqueles pouco afeitos ao canto lírico.O tenor Luciano Pavarotti é mesmo um caso especial. Além de ter uma das vozes mais belas de que se tem notícia, já esbanjou mundo afora, e também pelo Brasil, sua simpatia cativante, entre gargalhadas gostosas e tão opulentas quanto seu corpo robusto, volta e meia submetido a rigoroso regime alimentar. É este homem simples, porém incomum em sua compaixão por tudo o que é humano, que o leitor vai conhecer neste Pavarotti, meu Mundo, escrito pelo próprio artista em colaboração com o amigo William Wright. É claro que o homem não pode ser separado do cantor, que rivaliza com Plácido Domingo e José Carreras no lugar de melhor tenor deste fim-de-século. Os bastidores e as emoções dos grandes espetáculos, como o Concerto dos Três Tenores que reuniu as três estrelas e as excursões dos últimos 15 anos, recheiam sua trajetória com deliciosas e divertidas anedotas, especialmente na América Latina ou em lugares como China ou Cingapura.Um prazer adicional reservado ao leitor de Pavarotti, meu Mundo é poder se aproximar de personagens do circuito vip internacional, do qual o tenor faz parte e com os quais convive. Como a princesa Diana, por exemplo, que foi uma presença assídua na vida do cantor e que o impressionou por sua amabilidade, meiguice e amargura. Pavarotti não poupa comentários sobre astros que admira como o pop Bruce Springsteen, que, na sua opinião, arranca do público eletricidade igual à sua, apesar da diversidade de estilos. E jura ser um excelente amigo do rival Plácido Domingo, embora, no relato de seus últimos quinze anos, não se refira sequer a um almoço com o colega supostamente íntimo.Mas há intimidades. Ele fala da família, por exemplo, definida como "maravilhosa", de suas tensões e ansiedades, da misteriosa doença que afligiu sua filha. Um mundo candidamente emocionante. Uma janela para a essência de um artista carismático como poucos. Uma espiada nos bastidores de um tenor que conseguiu provar que a ópera é uma arte passível das mais modernas técnicas de marketing.
