Uma espécie de tribunal interno de alguns hospitais norte-americanos tem o poder de acabar com as carreiras de médicos.Trata-se de Comitê da Morte. Perseguidos por um autoritário inquisidor, três jovens e dedicados cirurgiões de transplantes de órgãos têm de lidar com os êxitos e fracassos de uma profissão humana e apaixonante em que o erro pode ser fatal.
Sobre racismo e plantões de 36 horas na emergência
Nos Estados Unidos entre os anos 1967 e 1968, em meio aos ecos dos protestos da juventude em Paris e da luta pelos direitos civis, culminando com o assassinato de Martin Luther King Jr., três residentes de medicina tem os destinos entrelaçados em um hospital-escola que atende a população de baixa renda e está sempre lotado. <b><i>O comitê da morte</b></i>, de Noah Gordon, o mesmo autor de <i>O Físico</i>, conta as histórias de Adam Silverstone, judeu ítalo-americano, Spurgeon Robinson, afroamericano, e Rafael Meomartino, cubano. Os três enfrentam os desafios da medicina ao mesmo tempo em que lutam, cada um a seu modo, contra o antissemitismo, o racismo e a xenofobia. O livro tem uma narrativa envolvente, que intercala os dramas privados de cada um dos protagonistas com as suas interações no hospital. Lembra bastante um episódio de <i>ER</i>, só que ambientado quase 30 anos antes. Para quem não conhece ou não lembra, <i>ER</i> - no Brasil chamada de <i>Plantão Médico</i> -, é uma série de TV norte-americana de drama que se passa em um hospital geral. Foi exibida entre 1994 e 2009 e revelou o ator George Clooney. Atualmente, pode ser revisitada no HBO Max, que tem todas as 15 temporadas. No livro de Gordon, a reconstituição de época é bastante rica, principalmente ao citar fatos históricos importantes dos anos 1960, como a Invasão à Baía dos Porcos, em Cuba, uma tentativa frustrada de exilados cubanos, com apoio norte-americano, de tirar Fidel Castro do poder após a Revolução Cubana; e a Guerra do Vietnã, que só acabaria em 1975. No entanto, não é o teor político efervescente desse período que tem o foco principal da história, embora sirva de cenário para os fatos narrados, mas os dramas dos protagonistas, fr seus pacientes e dos personagens secundários que têm ligação com as vidas de Adam, Spurgeon e Rafael. Além disso, há bastante informação sobre as primeiras tentativas de se realizar um transplante de rim com sucesso e detalhes sobre as pesquisas em busca da droga imunossupressora de maior eficácia contra a rejeição de órgãos transplantados. Para quem é sensível ao tema, as cobaias desses testes com medicamentos eram cães. Mas não há como apagar a realidade histórica de que o ser humano sacrifica outras espécies desde que dominou o planeta. Embora, hoje em dia, existam outras técnicas de pesquisa, nos anos 1960 elas ainda não haviam sido inventadas ou disseminadas em larga escala. <b>Bastidores da medicina</b> Noah Gordon tem bastante familiaridade com temas médicos e parece gostar de escrever sobre os bastidores da medicina nos mínimos detalhes. O autor ficou mundialmente famoso com <i>O Físico</i>, romance onde narra a jornada de Rob Cole, um jovem pobre e esfomeado britânico que vive uma odisseia por dois continentes até se tornar um eminente médico, na Idade Média das Cruzadas e da peste. O livro depois deu origem a uma trilogia sobre os descendentes de Cole, retratados em <i>O Xamã</i> e em <i>A escolha da Dra Cole</i>. Em <b><i>O comitê da morte</b></i>, no entanto, ele deixa de lado outro aspecto muito presente em suas obras, o interesse por História antiga e medieval que aparece em obras como <i>O diamante de Jerusalém</i> e <i>O último judeu</i> para focar nos acontecimentos contemporâneos da segunda metade do século XX, quando além das revoluções políticas e sociais, o mundo também vivia uma revolução nos costumes, com o advento da pílula anticoncepcional, o amor livre, a contestação jovem e o movimento hippie. A revolução sexual é abordada a partir das namoradas e esposas dos três protagonistas: Gabi, estudante de psicologia e namorada de Adam; Elizabeth, socialite, sobrinha do diretor do hospital e mulher de Rafael; e Dorothy, uma jovem estudante de classe média, com pais ultra religiosos, noiva de Spurgeon. As três garotas, embora não sejam as protagonistas do livro, não são meros pares românticos. Além de terem histórias próprias e conflitos pessoais e familiares para resolver, elas dão a sustentação às histórias dos jovens residentes médicos e, ao mesmo tempo, funcionam como um panorama da juventude do final dos anos 1960, com todos os dilemas da época, principalmente para as mulheres. O comitê da morte não tem a força arrebatadora de <i>O Físico ou de <i>O último judeu</i>, os dois melhores livros de Noah Gordon na minha opinião (baseada na leitura de cinco de suas obras todas listadas na minha estante aqui do Skoob), mas é uma boa leitura, que cumpre sua função primordial de entreter e uma digna tarefa secundária de servir como boa aula de História contemporânea e sem ser chato. <b>O exemplar que eu li:</b> É a versão em e-book da edição da Rocco de 1995, que infelizmente peca na revisão. Embora não comprometa a leitura, os muitos erros de digitação [letras trocadas e até palavras totalmente invertidas] irritam um pouco. Li pelo aplicativo Google Play Livros, que tem funcionalidades semelhantes ao Kindle da Amazon e pode ser acessado em qualquer dispositivo móvel, como smartphones, tablets ou e-readers. O nome do romance é derivado dos grupos médicos responsáveis pela análise das taxas de mortalidade nos hospitais, uma espécie de auditoria interna sobre possíveis erros nos tratamentos e como a perda de pacientes pode ser reduzida, na medida do possível, já que existem os casos inevitáveis. O comitê da morte serve para diferenciar as mortes evitáveis daquelas impossíveis de prever. <b>Ficha Técnica:</b> <i>O Comitê da Morte</i> Autor: Noah Gordon Tradutor: Roberto Grey Editora: Rocco, 1995 352 páginas *R$ 34,99 (capa comum) e R$ 24,49 (e-book Kindle) *Pesquisado em 25/04/2023 na Amazon
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