Lembrar, para não deixar se esvair. A Guerrilha do Araguaia, um dos capítulos ainda mais complexos da política brasileira, na segunda metade do Século XX, aos poucos vai se construindo historicamente. Em “Memórias Clandestinas: a Imprensa e os cearenses desaparecidos na Guerrilha do Araguaia”, Mônica Mourão apresenta uma peça a mais desse enredo montado em retalhos. O livro tem lançamento hoje, às 19 horas, no Museu de Arte da UFC “Por que eles não dizem logo que mataram, deram fim? Mas está desaparecido, sempre tem esperança. (...) Cada telefonema que vem assim, diferente, que eu não sei quem é, eu penso que é notícia dele”. A fala acima, de Tânia Gurjão, representa o sentimento de uma mãe que perdeu contato com o filho, Bergson Gurjão Farias, desaparecido político da Guerrilha do Araguaia. Apesar de o conflito praticamente não possuir registros na grande imprensa, as lembranças, guardadas na memória e no sentimento dos amigos e familiares, não são tão fáceis de serem apagadas. A partir desse mote, a jornalista Mônica Mourão adentrou, através de entrevistas, o universo particular de pessoas próximas dos desaparecidos políticos cearenses e procurou compreender como elas convivem com a perda e qual o significado desempenhado pelo desaparecimento. A Guerrilha do Araguaia aconteceu no início da década de 70, na região fronteiriça do Pará e do Tocantins, às margens do Rio Araguaia. Em pauta, militantes do PC do B tentavam montar a revolução cultural com a sublevação dos camponeses da região. Do Ceará, sete militantes pisaram nas terras paraenses, mas apenas três retornaram: Pedro Albuquerque, Dower Cavalcanti e o ex-presidente do PT nacional, José Genoíno. Sobre os demais - Bergson Farias, Custódio Neto, Antônio Teodoro de Castro e Jana Moroni Barroso - não se sabe o paradeiro. “Pelo fato de os corpos não voltarem, ainda há uma certa esperança de que eles não tenham morrido e, quem sabe, ainda voltem”, explica a autora do estudo. Mais do que o interesse pelo próprio conflito em si, Mônica Moura, ao escrever “Memórias Clandestinas”, busca entender quais os resquícios de um confronto que se tentou apagar permanecem nas memórias íntimas. “Há indícios de que o exército tenha desenterrado e queimado os corpos. Ou seja, eles queriam apagar da história qualquer pista”, completa. O vazio parece ter dado certo, pelo menos na imprensa. Por causa da censura, fora os textos publicados em jornais alternativos, a pesquisadora conseguiu identificar apenas duas reportagens, em jornais brasileiros de grande circulação, que tratassem do assunto. Uma no Estado de São Paulo e outra no Jornal da Tarde, em 1972. “Como os dois jornais eram do mesmo grupo empresarial, as matérias são praticamente idênticas, só diferem em alguns detalhes”, explica Mônica. Aos poucos, as histórias fragmentadas vão se encontrando. Pesquisas são elaboradas, documentos descobertos, filmes produzidos. Tudo para não deixar apagar um dos maiores conflitos políticos e massacres deste País. “Memórias Clandestinas” resulta da pesquisa de monografia de Mônica Mourão, concluída em dezembro de 2004, sob a orientação do professor Gilmar de Carvalho. O livro faz parte da coleção do Laboratório de Estudos da Oralidade (Leo) que envolve a UFC e a UECE. Fonte:
