Experiência de linguagem do autor e nostalgia do leitor
"A lebre dói como faca de ouvido" não é uma novela para quem gosta de ações e enredos movimentados. Ela é, acima de tudo, uma excelente experiência de linguagem. Pedro, o protagonista-narrador, assentado sobre uma torre, propõe um diálogo com os vivos e os mortos e deseja de forma obsessiva que lhe falem a palavra que nunca foi dita. Nesse meio tempo, enquanto vemos referências filosóficas (Nietzsche e Wittgenstein, por exemplo) e a produtos do século XX com certa popularidade até hoje ("Cidadão Kane", de Orson Welles), Pedro também revela seu desejo por uma garota específica. E agora em 2022, este leitor se permite uma bela nostalgia de quando manuseou um exemplar deste livro de uma biblioteca pública do Oeste catarinense em 2001 e relembra, agora, como essas palavras caíram fundo no seu gosto, ainda que a imaturidade da época não permitisse captar certas referências e nuances. Livro muito recomendável.

