Cartas a Legba - um texto encontrado

    Susan Willis (org.)

    Boitempo Editorial
    2008
    104 páginas
    3h 28m
    ISBN-13: 9788575591130
    Português Brasileiro

    Um misterioso pacote de cartas entregue à escritora Susan Willis é o ponto de partida deste livro que, por meio da reprodução dessas cartas, conta a história de um relacionamento amoroso. Susan se apaixonou pela prosa da Bela Adormecida – pseudônimo utilizado pela autora das cartas, cuja identidade é desconhecida – e mergulhou fundo em seus múltiplos significados. O resultado desse arrebatamento é o surpreendente Cartas a Legba. Carregadas de desejo, as cartas desenvolvem em tom de fábula a trajetória do amor entre Bela e Legba, seu amante e destinatário. Ousadas e provocativas, as cartas desafiam o receptor, o censuram e o elogiam, terminando sempre com um convidativo “a seguir”, que instiga a leitura da carta seguinte. Bela registra os acontecimentos de sua vida, entremeando-os com relatos de seus sentimentos. Dessa forma, não se furta a dividir com o amante aspectos de seu cotidiano, como o trabalho e as mudanças de estação. A aparente simplicidade de sua fábula encobre a complexidade de sentimentos e subjetividades presentes nas cartas. A autora se apresenta como uma mulher multifacetada, capaz de encarnar vários papéis e nada inocente. O posfácio do livro, escrito por Maria Elisa Cevasco, traduz os sentimentos de Bela e gera uma identificação imediata com o público leitor, especialmente o feminino. Quem nunca tentou dar sentido à experiência do amor, entendê-la, recontá-la? Para Maria Elisa, além da história, sobressai nas cartas “a dor enorme de dizer e, ao dizer, limitar e negar”. A coragem de Bela está em assumir de forma escancarada seus desejos. Nesse sentido, Cartas a Legba cumpre um papel emancipador. Sua beleza está, nas palavras de Maria Elisa, em empreender a “tarefa necessária e impossível de tentar explicar o que se recusa a ser contido por palavras”. Organização e prefácio por Susan Willis Posfácio por Maria Elisa Cevasco

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    Doney Corteletti Stinguel31/08/2023Resenhou um livro
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    Cartas a Legba, de Susan Willis (org.)

    “Toda carta é um risco, tanto em termos factuais quanto de seu significado. Será que a carta que escrevi será enviada (ou ficará guardada na minha gaveta)? Chegará a seu destino (ou ficará perdida, ou será interceptada no acaso do trânsito)? Será aberta (ou será jogada no lixo por um receptor enraivecido ou mesmo indiferente)? Minha carta será guardada? E se for, será como um tesouro ou meramente arquivada? E, aí, o jogo fatal: minha carta será encontrada? E se for, por quem? Quais serão, então, as consequências? Tenho certeza de que não sou a única esposa que, procurando selos na escrivaninha do marido, acabou encontrando uma carta de amor. Como foi divertido encontrá-la, que deliciosa a enorme curiosidade de ler, como me senti superior ao ver as linhas patéticas, cheias de carinho. Certamente eu poderia redigir algo mil vezes melhor, embora escrever cartas de amor para o marido seja algo que as esposas nunca fazem. Um amor feito de certezas não se confessa. Ainda que seja um objeto, a carta guarda a característica especial de não ser uma mercadoria, a menos que tenha o azar de ter sido escrita por uma pessoa famosa e, depois, vendida em leilão. As cartas apresentam a matéria-prima do pensamento trabalhada em uma forma física, e enviada a outra pessoa, em um processo no qual a produção e a troca não geram lucro. O capitalismo não é a economia das cartas. Falta-lhe o ofuscamento da mediação e da abstração, sua economia é muito mais brutal e direta. Trata-se de uma forma econômica semelhante à dos jogos de azar, que nos pede que arrisquemos uma parte de nós mesmos cada vez que escrevemos. Apostamos nosso futuro no resultado de nossas palavras. Uma carta pode não gerar lucros, mas seu custo pode ser muito alto. Quando recebemos uma carta, fazemos o jogo de sua economia. Ler uma carta é confiscar significados. Só os leitores simplistas aceitam as palavras pelo seu valor nominal. Assim, negociamos o custo da escrita da carta pelo preço da nossa interpretação.” (Prefácio de Susan Willis) * * Mais do blog Lista de Livros em:

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