500 anos de leite no Brasil -

    João Castanho Dias

    Calandra Editorial
    2006
    147 páginas
    4h 54m
    ISBN-10: 8598597031
    Português Brasileiro

    Café com leite. Talvez não exista no Brasil uma dupla de bebidas tão antiga e tão popular. E olhe que esse casamento sacramentado em meados do século 19 foi alvo de críticas do príncipe dos poetas brasileiros Olavo Bilac. Ele chegou a defender nos jornais o fim da dupla, argumentando que ela reduzia o consumo de café, então em grave crise. Já o padre Manoel da Nóbrega só tinha elogios ao leite, que era no colégio por ele fundado na Bahia o alimento-chave na lavoura das almas índias para o cristianismo. Aliás, o Jesuíta ocupa lugar de honra na história d leite. É dele a primeira referência ao alimento na literatura brasileira,feita em 1552. Como a culinária colonial era liberada pelos frutos da terra, o tripé mandioca, milho e carne, o leite passou por um longo período de obscuridade no Brasil.Teve vez somente após a imigração da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, que trouxe, além de numerosa corte, uma gastronomia baseada em manjares nos quais entravam manteiga, queijo e leite. A modesta culinária indígena,que por 300 anos dera as cartas na mesa colonial, comandada pelas cunhãs, as primeiras cozinheiras do país, perdia espaço para a sofisticada culinária européia, com suas toalhas de linho e colheres de prata. E foi da Europa Portuguesa e Espanhola que vieram as vacas. Eram apenas 32. Os índios se espantaram: nunca tinham visto bicho assim. O maior que conheciam era a Anta, cuja domesticação foi curiosamente tentada séculos atrás como animal de transporte. Para os índios servia como fonte de carne. Se a vaca fosse deixada ao livre arbítrio deles, seu destino seria igualmente o fogão, pois não sabiam fazer a ordenha. Hoje esse serviço está a cargo do homem, mas conta a história antiga que as mulheres domesticaram as vacas então selvagens para delas extrair e dar ao filho o leite que seus seios não tinham. A amamentação também entra neste livro. No tempo em que as vacas eram escassas e eram um estorvo, por estragar as hortas, quando a amamentação estava cheia de tabus,as mães branca alugavam o peito de escravas para seus filhos. Os donos das negras, chamadas em anúncios de jornalde "cabras de leite" diziam ganhar mais dinheiro com a exploração delas do que com o café,o eixo do desenvolvimento conômico do país. Os barões do café faziam lavouras, como levar sua vaca patticular no navioem que seguiam rumo a Paris para que tivessem leite tirado na hora. Falando em barões, na história do leite surge um nobre mais graduado, o príncipe D. Pedro I. Pioneiro na importação de gado Zebu para o Brasil. Sua alteza montou nos ídos de 1810 um laticínio caseiro para produzir queijo e manteiga nos moldes dos ingleses na Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, onde se reunia nas férias de veraão com a família e a amante, a lendária marquesa de Santos. O primeiro laticínio brasileiro surgiria muito tempo depois, quando D. Pedro I já voltara a Portugal para ser D.Pedro IV. Fundado em Minas Gerais nas vésperas da proclamação da república, esse laticínio era um claro sinal dos novos tempos do leite. Por suas virtudes alimentícias, o leite afinal acabou conquistando seu espaço na sociedade de consumo, tornando-se um ícone da mesa do brasileiro. A história do leite é a história do Brasil, com todas as contradições de um país que tem corpo na América e coração na África. Sua história não terminou neste livro. Está em construção, em chão firme, graças a visionários como Antônio Saraiva, que montou uma fábrica de manteiga no sertão do Piauí, com máquinas vajando m balsas, por pontes de pau e num cortejo de carros de boi. Ou como Felisberto de Camargo, que ficou seminu num avião inglês por ordem de autoridades contrárias ao gado por ele trazido da índia. Esse gado produziria leite para os povos da Amazônia.

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