Descobri a obra de Natércia Campos de Saboya (1938-2004) no ano passado, durante minhas pesquisas para a organização da antologia "Góticas brasileiras", da editora O Grifo.
O primeiro conto publicado de Natércia foi "A Escada", de 1987, pelo qual ganhou o primeiro lugar no Concurso Literário Sudameris, da Academia Botucatuense de Letras. No ano seguinte, sua obra ILUMINURAS, com quinze contos, ganhou o segundo lugar na 4ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, com grande aceitação no Rio de Janeiro e São Paulo.
E é sobre esse livro que quero escrever hoje.
Apesar de não poder incluir algum conto de Natércia em GÓTICAS BRASILEIRAS, já que sua obra não está em domínio, consegui adquirir um exemplar de ILUMINURAS e o guardei para ler assim que tivesse um tempo sobrando.
A verdade é que eu devorei esse livro! ILUMINURAS é uma coletânea exemplar do fantástico e do gótico feminino produzido no Brasil. Seu único defeito é não ser tão conhecido do público e não possuir (ainda) uma nova edição.
Sobre os contos...nossa, que leitura incrível! Chega a ser revoltante Natércia não ser tão conhecida como uma Lygia Fagundes Telles ou Clarice Lispector. Suas histórias são povoados por um imaginário místico, que transita entre a oralidade rural, o folclore, a tradição gótica e o realismo mágico - ela poderia figurar, tranquilamente, ao lado de Mariana Enriquez, Horácio Quiroga e Gabriel Garcia Marquez.
Os contos de ILUMINURAS trazem bruxas passando suas tradições adiante, fantasmas que assombram casas, pescadores que desaparecem em um rio misterioso, terrores em um velho farol, e muitos outros feitiços e assombrações.
A prosa de Natércia é deliciosa, bem escrita, e evoca os causos contados ao redor de uma fogueira ao ar livre ou à luz de uma vela em noites chuvosas.
Dois anos antes de falecer, em 28 de fevereiro de 2002, Natércia tomou posse da cadeira n° 6 na Academia Cearense de Letras. Uma escritora incrível e hábil tecelã das palavras, que certamente merece ser mais conhecida e lida.