O Cortejo do Divino (Coleção L&PM Pocket #191) - e Outros Contos Escolhidos

    Nelida Pinõn

    L&PM
    1999
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-13: 9788525410054
    Português Brasileiro

    Nélida Piñon é uma das maiores escritoras brasileiras e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), que presidiu entre 1996 e 1997. Em 2005 recebeu, na Espanha, o Prêmio Príncipe das Astúrias, pela primeira vez concedido a um autor brasileiro. Dona de uma obra consistente e profunda, soube, com seus romances e seus contos, conquistar o coração de um enorme público de leitores. "(...)Sem concessões ao gosto pelo fácil e o familiar, sua arte de contar exige almas irmãs, atentas à ondulação dos vocábulos, às frases como águas vertentes, ora convulsionadas pela emoção, ora límpidas nos remansos da narração. Em seus contos, o narrador por vezes se despersonaliza, para observar e acentuar a via-crúcis das relações, e outras vezes assume a voz do protagonista, seus temores, hesitações, paixão cega ou submissão irônica. Suas histórias são sempre desconcertantes, exacerbando as características do conto: uma arquitetura toda voltada para o final que surpreende, eleva ou nauseia. Nos contos aqui reunidos atormentam-se mutuamente comunidades e indivíduos singulares, em situações insólitas, enfrentam-se casais em desacordo, pais e filhos, irmãos e estranhos visitantes, consciências pesadas ou aflitas até o limite, mulheres oprimidas e homens inescrutáveis.(...)" Trecho da introdução de Maria da Glória Bordini incluída no livro. Contos: "Cantata" "Fraternidade" "Menino doente" "Fronteira natural" "A sagrada família" "Os mistérios de Eleusis" "Cortejo do divino" "O Jardim das Oliveiras" "I Love my Husband" "Finisterre"

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    Ronaldo da Silva Thomé Júnior21/04/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    "Quero o Pão na minha Boca, não no meu Sonho"

    Uau! Mais uma grande leitura! Nelida sempre foi uma das minhas autoras favoritas, pelo menos em relação aos contos. Seu trabalho flerta com o realismo fantástico, lembrando (óbvio) Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector, mas ela tem uma voz toda própria, reflexiva. Aqui, as histórias são um pouco mais lineares, mesmo que, em grande parte, os contos sejam bastante psicológicos. Nelida Piñon alterna entre narradores em primeira e terceira pessoa em diferentes textos. Aqui, também, nota-se uma presença grande de situações absurdas, mas que são tão bem encaixadas que parecem simples e cotidianas. Em especial, já conhecia alguns dos textos por meio de outra coletânea: Sala de Armas, que eu li há vários anos. No entanto, devido ao distanciamento do tempo (seis ou sete anos, talvez mais) foi como redescobrir as histórias. Nelida brinca com a narrativa onisciente e psicológica (Cantata); seus temas são variados, e ela tece histórias mágicas sobre a descoberta do ser (Fronteira Natural), em que o inferno é o desconhecido - e o que acontece quando ele se torna conhecido? - a obsessão amorosa (Cortejo do Divino), o papel submisso da mulher na sociedade (I Love my Husband e Fraternidade - esses dois merecem um destaque por seguirem em direções opostas). O mágico, sobrenatural, aparece com força em "Os Mistérios de Eleusis", com influência da mitologia; aqui, a escritora narra uma belíssima história de amor e solidão, que parece se repetir em ciclos. Seria meu conto favorito, até a leitura do extraordinário "Jardim das Oliveiras": além de ser o mais longo, é um mergulho na mente de um homem torturado, que se perde em sua própria consciência ao confessar algo para salvar sua vida. Por fim, "Menino Doente" e "A Sagrada Família" giram em torno da questão familiar, das pequenas violências e ações que se avolumam com o tempo, sem que se perceba - o que ganha contornos trágicos no segundo conto. "Finisterre" finaliza a obra como uma peça delicada, onde o papel da mulher dentro da família é o ponto de partida de uma reflexão longa para uma moça em viagem. É um belíssimo livro que vale a pena cada momento, não apenas por suas frases de efeito, pela temática, pela prosa (há muito fluxo de consciência e monólogo interior), mas pela soma de tudo isso, numa obra original e que merece toda atenção. Até o momento, o melhor livro de contos do ano! Indicado para: quem gosta de imaginar mundos internos ao ler um livro, sem perder a reflexão sobre a vida. Nota: 10,0 de 10,0.

    5 curtidas

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