'Dos canibais' revela a interpretação sobre o velho e o novo mundo por meio da linha de pensamento do filósofo francês Michel Montaigne. Essa análise permite aos leitores uma interpretação sobre como compreender e avaliar outro povo, aproximando o desconhecido e interpretando seus costumes e práticas de modo a levá-los a entender a própria sociedade. O livro também serve de porta de entrada para o complexo pensamento de um dos filósofos da tradição ocidental. Para Montaigne, os bárbaros não seriam aqueles que habitavam a parte desconhecida do mundo, mas sim os indivíduos que se encontravam no velho Mundo.
Dos Canibais -
Michael de Montaigne
Michel de Montaigne é um dos filósofos que mais me tocam. Ele escreveu sobre praticamente todos os afetos humanos. Dos canibais remonta ao século XVI, mas temos a impressão de estarmos lendo uma crítica da sociedade atual. A partir da "descoberta" do Novo Mundo e de culturas diferentes passa a analisar a sociedade européia e o preconceito que a permeia. Para Montaigne, o que dá sustentação ao preconceito é o hábito ou o costume, os quais amortecem os sentidos, neutralizam a razão e a capacidade de pensar corretamente. Por outro lado, sendo a sociedade castradora e opressora a tudo que é diferente, inclusive ideias, muitas vezes, preferimos aderir à maioria e à opinião comum, pois torna a vida mais fácil e mantém as complicações à distância. Nesse sentido, os povos do Novo Mundo foram chamados de bárbaros (tudo que difere de nossas práticas e opiniões é visto como errado ou condenável). Montaigne não idealiza os povos do Novo Mundo e não adere ao pensamento do bom selvagem. Estes também praticavam atos cruéis (por exemplo sacrifícios, tortura e canibalismo) e para Montaigne a crueldade é um dos piores vícios. Montaigne visava menos enaltecer esses povos do que criticar e condenar alguns aspectos da sociedade francesa em que viva, a qual, nesses aspectos se parece com a atual, como por exemplo a aceitação das desigualdades sem dores de consciência. Outro aspecto interessante é que para Montaigne era claro que assim como os atos cruéis dos povos do Novo Mundo se davam a pretexto de devoção e fé, na Europa, o fundo verdadeiro das guerras não era a devoção e a fé, mas interesses de outra ordem. Parece que o mundo não mudou muito de lá para cá. Outra crítica de Montaigne também é bastante atual: o excesso de leis. Os povos canibais viviam apenas com duas leis humanas convencionais e não naturais: a do amor pelas esposas e a da valentia na guerra. Conclui que a sociedade não precisa de muitas leis para sobreviver. Havia na França um excesso de leis, que pecavam não somente pelo número excessivo, mas também pela confusão que geravam ao se contradizerem. Também aqui o tema é bem atual. Montaigne entendia que as leis francesas deveriam ser simplificadas e tornadas menos abrangentes para dar mais liberdade às pessoas; quanto menos artifício para regulamentar a vida, melhor estaremos. Os povos do Novo Mundo, apesar de canibais, viviam bem com apenas duas regras artificiais. Mas como podem servir de exemplo se "eles não usam calças".
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