A Dádiva - Como o Espírito Criador Transforma o Mundo

    Lewis Hyde

    Civilização Brasileira
    2010
    480 páginas
    16h 0m
    ISBN-13: 9788520008249
    Português Brasileiro

    A Dádiva, considerada a obra-prima de Lewis Hyde, parte da premissa que toda obra de arte é uma doação e não um produto. A partir de referências à história, à literatura e à antropologia, o autor constrói seu argumento de que o produto do fazer artístico é uma doação e não uma mercadoria. Hyde ainda mostra como o “comércio do espírito criativo” funciona na vida dos artistas e na cultura como um todo. O conflito, tanto na arte quanto no cotidiano, entre oferecer dádivas e vender commodities foi o que motivou o autor a escrever esta obra multidimensional. A publicação do livro nos EUA, na década de 80, causou grande impacto. As ideias de Hyde foram atacadas em uma feroz crítica no New York Times, rebatida por uma carta na revista The Times. O texto que ganhou status de manifesto foi escrito por um grupo de artistas que acolheram o livro. Entre eles, nomes de peso: Robert Pinsky, Donald Hall e Gary Snyder. Uma das bases do pensamento de Hyde consiste na ideia de que a troca de dádivas difere da troca de commodities porque cria um vínculo emocional, ao passo que comprar ou comercializar coisas não. Um dom que não pode ser doado deixa de ser um dom. Esta conclusão suscitou diversas discussões no meio artístico norte-americano que reveleram o seguinte dilema: “Se os trabalhos criativos não necessariamente possuem qualquer valor de mercado, como os artistas sobrevivem”? Hyde dá exemplos de criadores que não se submeteram ao mercado. Ao analisar a vida e a obra dos escritores Walt Whitman e Ezra Pound, ele examina o papel do artista como benfeitor público. Apesar de analisar estas duas figuras radicais, em sua reflexão Hyde também mostra caminhos que apontam para um ponto de equilíbrio entre o fazer artístico e o mercado.

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    Pablo Pax27/06/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Sobre a doação como troca

    Este livro é um daqueles que fará parte dos grandes clássicos do ensaismo e talvez seja lido por muitas gerações. Está dividido em duas partes: a primeira é uma argumentação, com referências da antropologia social e econômica, em que o autor defende a Dádiva (o Dom, a Doação) como um processo de troca legítimo da qual os artistas e a OBRA DE ARTE não podem prescindir, ainda que o capitalismo exija do artista que ele seja apenas mais uma versão do homo economicus. A segunda é um estudo literário das obras de Walt Whitman e Ezra Pound, artistas contraditórios, mas cujas obras são exemplos de verdadeira doação à Arte. Em suma, ele usa esses dois poetas americanos como exemplos, muito contundentes a meu ver, dos argumentos defendidos na primeira parte. Acho que um livro como esse, do final dos anos 1970, dificilmente seria publicado hoje porque não teria público imediato. Não o teria porque as gerações posteriores - Millenials, Y, Z etc. - já cresceram num mundo pós-guerra fria, portanto, longe das lutas ideológicas do século XIX/XX, especialmente entre capitalismo x comunismo, liberalismo x socialismo. Isso significa que não vemos alternativas para um mundo que não seja capitalista ainda mais com os efeitos do mundo globalizado a partir dos anos 1990. Pode reparar que as lutas ideológicas atuais são mais contra ou a favor da democracia, contra ou a favor da diversidade cultural, contra ou a favor do nacionalismo etc. Alfim, contra ou a favor de algo ou coisas DENTRO do capitalismo. Até mesmo os 'antiglobalistas' são antiglobais mais pelos efeitos nefastos da desindustrialização em seus países (como o desemprego) do que por outros motivos mais nobres como a depredação do meio ambiente, as mudanças climáticas ou a exploração de mão-de-obra infantil nos países pobres. Todo o repertório da geração Millenials adiante está voltado, parafraseando Ezra Pound, não para a distribuição das riquezas que a teconologia atual permite, mas para a administração e aceitação da escassez. É um livraço que vale a leitura.

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