Redação Inquieta -

    Gustavo Bernardo

    Rocco
    2010
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-13: 9788532525864
    Português Brasileiro

    Um estudante contempla o papel em branco na sala de aula; um jornalista se agonia com o texto que teima em não fluir; um advogado pensa na melhor maneira de traduzir sua tese de defesa de maneira a ser plenamente compreendido pela autoridade. Três situações, um mesmo desafio: escrever, redigir um texto com clareza, concisão e elegância. Para vencê-lo, Redação inquieta, livro do professor, ensaísta e romancista Gustavo Bernardo, pode ser de imensa valia. Na obra, Bernardo desafia alguns mitos comuns entre alunos, professores e até entre escritores consagrados, como o de que escrever bem só é possível a quem tem um “dom” ou domina este ou aquele conjunto de técnicas narrativas. Em sua reflexão teórica, o autor frisa que seu foco é apostar num ensino de redação menos tecnicista e mais filosófico, sem que isso signifique abandonar a preocupação com correção gramatical, estilo e personalidade. Dividido em sete capítulos de nomes simples como “Ato”, “Método” e “Estilo”, este Redação inquieta parte de uma contundente crítica à escola, que segundo Bernardo atua para tolher individualidades, buscando uma irreal, porque impossível, padronização da maneira de pensar e, consequentemente, de escrever. O autor faz questão de ressaltar que seu livro não é um manual, cheio de truques e “macetes” para fazer boa redação na aula ou no vestibular, e afirma que seu livro é teórico no sentido mais pleno: o de propor uma hipótese e investigá-la cientificamente, até chegar – ou não – a uma conclusão apoiada em experimentos. Durante sua investigação, Bernardo não hesita em atacar mitos arraigados na cultura escolar, como o que diz que “quem não lê nada, não escreve nada” – ler é uma necessidade para a própria vida, não só para o aprendizado da escrita, afirma, mas não há linha direta entre ser bom leitor e tornar-se bom escritor. Uma redação, para ele, nunca é produto acabado, mas antes uma espécie de espelho, em que o outro (o que lê) espera encontrar seu reflexo, ainda que distorcido, destacando mais as diferenças que as semelhanças. A redação, prossegue, é uma caminhada que parte do já sabido – e reproduzido quase que ipsis litteris – rumo ao novo, ao inesperado, fruto das novas combinações de ideias e palavras. Combinações estas que só são possíveis a quem recusa a acomodação e encara o desafio de escrever, rasgar o rascunho (“Não acredito na inspiração”), reescrever, tornar a avaliar o escrito, reescrever novamente, até chegar a um texto novo, pessoal. “A atitude de ler é metonímia da vontade de entender o mundo. Escrever, por sua vez, é metonímia da pretensão de transformar o mundo”, afirma. Um dos capítulos do livro, “Maniqueísmo”, é dedicado ao dualismo “bom-mau” que tanto atrapalha a formação dos argumentos e a organização da redação ao buscar adaptar o mundo real à simples divisão entre Bem e Mal – onde estarão, segundo ele, os adversários da doutrina dominante, qualquer que seja ela. O maniqueísta, ao optar por um dos lados, procurará sempre calar o oponente, que por sua vez lutará contra o pensamento dogmático, doutrinário, do outro. Como marxista de formação, Bernardo ressalta que calar o oponente é sempre parte de uma estratégia de dominação. Lançado em 1985 e depois reeditado, o livro (que passou por revisão e atualização, feitas pelo autor) segue sendo ótima referência em tempos de internet – nos quais, se não aumentou o número de novos escritores, certamente cresceu a porção deles que se dispõe a expor seus escritos à avaliação de qualquer leitor com acesso à grande rede – para todos que, como o estudante, o jornalista ou o advogado citados no início deste texto, desejem aprimorar filosoficamente sua maneira de pensar o mundo a seu redor e de traduzi-lo em palavras que expressem esse pensar.

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    Yuri Hutflesz picture
    Yuri Hutflesz03/11/2015Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Redação Inquieta é um livro difícil de definir. Mais fácil seria dizer o que ele não é: nem manual de estilo, nem tratado de técnicas, muito menos guia normativo. A riqueza da obra de Gustavo Bernardo está justamente em sua abordagem ampla do ato de escrever. Ao longo de sete capítulos, o autor defende o raciocínio crítico, a humildade e a abertura permanente a pontos de vista diversos como essenciais para a produção de textos. Bernardo dedica, é verdade, algumas páginas à exposição de lógica básica e conceitos utilizados em argumentação. Faz isso com o intuito de ajudar o leitor a identificar e organizar melhor suas próprias ideias. A premissa aqui é a mesma de Othon Moacyr Garcia, em Comunicação em Prosa Moderna: aprender a escrever é aprender a pensar. Mas aprender a pensar não significa decorar um punhado de argumentos e fórmulas para depois distribuí-los a esmo pelo papel (ou pela tela do computador). É o contrário: os princípios lógicos servem para auxiliar o leitor a tornar-se independente, capaz de articular suas próprias opiniões, até para modifica-las, se for o caso. Ter em mente a pluralidade de formas pelas quais é possível abordar qualquer assunto é um dos principais pontos defendidos no livro. Para o autor, as inúmeras hierarquias e arbitrariedades às quais estamos todos socialmente submetidos exercem uma pressão que muitas vezes interrompe os fluxos livres do pensamento. O resultado é a reprodução constante de preconceitos, maniqueísmos e ideias vazias nas redações. Vencer essas estruturas rígidas é criar textos vivos. Ordenados, sim, pois não há vida no caos, mas, acima de tudo, instrumentos de autoafirmação e autocrítica. Redação Inquieta convida-nos a contemplar permanentemente nossos potenciais e inseguranças, a questionar nossas certezas, a escrever o que somos e o que queremos ser. É um livro que ensina não por meio de cartilha, mas pelo próprio exemplo. Cada uma de suas páginas transborda seu autor, e demonstra que uma obra pode ser, ao mesmo tempo, crítica, didática e humana.

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