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    Sobre o Desprendimento -

    Mestre Eckhart

    Martins Fontes
    2004
    120 páginas
    4h 0m
    ISBN-10: 8533620462
    Português Brasileiro
    4.8
    4 avaliações
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    O desprendimento está na base da doutrina espiritual do Mestre Eckhart. De alcance universal, tal exigência abissal da pobreza em espírito, que tem deixado vestígios na história do pensamento - Nicolau de Cusa, Ângelo Silésio, mas também Hegel, Jung, Heidegger e Bataille -, suscita interesse muito além do cristianismo, em especial nas escolas de mística oriental. É próprio de Eckhart a audácia do desprendimento, a capacidade de conduzir a teologia para a vertigem do nada, com um gesto radical que lembra certos textos budistas.

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    Theophilus Amandus picture
    Theophilus Amandus08/03/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O Sumo Desprendimento Como Via de Meditação e Amor a Deus, por Meister Eckhart.

    INTRODUÇÃO SOBRE O AUTOR (O conteúdo do livro é abordado na parte seguinte, aos com pouco tempo ou apressados XD) O que falar de Meister Eckhart? Segundo sua "própria" doutrina — que em realidade não é nada mais do que uma transmissão autêntica do misticismo crístico — falar dela já seria um demasiado exagero. Ela é muito mais um suspiro que qualquer outra coisa, em essência, por trás de sua linguagem paradoxal e de primeira vista contraditória; única linguagem que pode abarcar o limite da fala do cristão quando quer abordar o inefável amor Divino. Compará-la a uma psicologia hesicasta oriental seria limitá-la, visto a universalidade do Verbo, porém, tendo em conta que ao menos hoje em dia o ocidente deixou de lado muito do apofatismo e linguagem mística outrora muito presente no hesicasmo ocidental, como pode-se comprovar na ontologia Cartuxa e Carmelita; não é errado para fins didáticos vê-las juntas [o pensamento de Eckhart e pysche do Oriente]. Em tese falam as mesmas verdades quando se propõem a tal. Contudo foi justamente por utilizar de uma linguagem incomum ao seu tempo e sua Ordem que Eckhart foi perseguido e dito como herége por décadas e décadas, por suas sentenças incompreendidas. Tanto é, que até hoje alguns teimam chamá-lo de "gnóstico" (desvirtuando totalmente o termo 'gnosis') e irracional. Vê-se aí um vício profundo de pôr todo o pensamento da Igreja no time "aristotélico-tomista". Fato é que o Mestre foi basilar para o florescimento, uma vez mais, da pura mística cristã no ocidente. Deixando discípulos ímpares como o próprio beato Henrique Suso, autor d'O Pequeno Livro da Sabedoria Eterna. SOBRE O DESAPEGO O tratado de Eckhart sobre o sumo desapego foi a primeira obra de sua autoria que li. Nela, o tema principal e profundo, tratado com toda a simplicidade e "treva" do "falar-místico" que comporta, é a busca pela maior das virtudes, segundo o autor, que seria mais nobre e divina que o amor e a humildade: o Desapego. O termo aqui pode ser análogo (aos que conhecem a terminologia dharmica) à busca do Sūnya: O vazio que preenche tudo, o silêncio ilimitado, maior que qualquer palavra. Este vazio porém, não é uma falta, senão a completude mesma. Em termos familiares a escolástica católica: A essência de Deus que é o próprio Ser, diferente dos entes limitados por formas, Sua quididade é ilimitada. O sumo desapego por toda criatura, por toda a criação e por si mesmo é a mais nobre virtude, pois busca ser "como Deus, imutável e sem dependência" exceto que, a alma sempre é e será dependente de sua sede pelo Divino; como o próprio Meister escreve no início do tratado: "[...]Pela qual uma pessoa pode chegar o mais próximo de sua imagem quando estava em Deus, quando não havia diferença entre ela e Deus, antes que Deus tivesse feito criaturas." Tendo a deificação como fim último de toda criatura intelectual, é mister a alma buscar, dentro das possibilidades entregues a ela pela graça abundante, tornar-se Deus enquanto participante d'Ele; Ser parte do Sumo Bem, sendo boa. Para Eckhart é justamente o sumo desapego que auxilia a alma a se assemelhar a Deus da forma mais pura e perfeita. Tornar-se imutável segundo a imutabilidade do próprio Inefável. O desapego seria maior que a própria humildade, pois: "A alma humilde busca estar abaixo de toda criatura. Já a alma desapegada não quer estar nem abaixo, nem acima [...] o desapego não busca nem isso e nem aquilo, busca simplesmente ser". Reputa-o, Eckhart, mais nobre que o amor, pois quem ama a Deus vai até Ele, mas o portador de uma alma em pleno desapego "força Deus a habitar em si". Para o leitor não familiar com as "ousadias" na linguagem Eckhartiana, tal como "forçar Deus a me amar", corre o risco de ficar na impressão algo de rude no modo do Mestre de falar, mas não desespere; Eckhart trata da relação Alma-Deus da forma mais profunda e amorosa, como se apenas essa relação tivesse importância, o que não cessa de ser verdadeiro. Como bem escreveu São Dionísio Areopagita em sua Teologia Mística: "Ao adentrar na Treva Divina já não há palavra ou prece, amante ou amado. Há apenas a ignorância suprema do conhecer." Similarmente escreve Eckhart, no tratado sobre o despego, o seguinte: "Novamente eu pergunto: 'O que é a prece de um coração desapegado?' Minha resposta é que desapego e pureza não podem orar, pois aquele que ora quer que Deus lhe conceda algo, ou quer que Deus retire algo dele. Mas o coração desapegado não deseja absolutamente nada, nem quer se livrar de nada e está, portanto, livre de qualquer prece, ou sua prece consiste apenas em estar conforme com Deus. Esta é toda sua prece." Ademais, o livro trata muito bem da eternidade do querer e agir de Deus, de como se deve por meio do desprendimento de todas as coisas (lembrando o próprio Doutor Místico, São João da Cruz) contemplar e viver nesta vida as fagulhas da amorosa eternidade beatífica no seio da Santíssima Trindade, ou, como bem diz o autor do tratado em outra obra: "Ser um com o Uno no Uno eternamente." Gostaria de finalizar esta resenha com um conselho do próprio Meister Eckhart: "Agora, tome nota todo aquele que é sensível! Ninguém é mais feliz do que aquele que tem o maior dos desapegos."

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    Eckhart von Hochheim profile picture

    Eckhart von Hochheim

    Mestre Eckhart nasceu em 1260, em Hochheim, perto de Gotha, na Turíngia, região que hoje se situa no centro-oeste da Alemanha; muito jovem ele entrou para Ordem dos Dominicanos, e já em 1277, aos 17 anos, ele está em Paris estudando artes, que na época incluía lógica, gramática, retórica, música, astrologia, geometria e aritmética. Em 1280 ele vai para Colônia, onde estuda teologia no Studium Generale da Ordem dos Pregadores. Nesta época ele foi aluno de Alberto Magno, cientista, filósofo e teólogo aristotélico. Em 1303 passa a ser provincial da Saxônia, região que incluía todo o norte da Alemanha e Holanda, onde existiam 47 conventos de frades e 9 de religiosas dominicanas. Assume grande responsabilidade, incluindo a fundação de novos conventos, a direção espiritual dos irmãos e irmãs e a condução dos negócios e acertos com os senhores feudais. Em 1310, em Estrasburgo, Eckhart é eleito vigário geral, que vem a ser o substituto do superior-geral dos Dominicanos. De 1314 a 1322 ele fica em Estrasburgo ocupando o cargo de vigário geral da Ordem, com a função principal de realizar a pastoral das religiosas dos conventos e sua direção espiritual. Por isso ele viaja bastante e faz pregações ao povo, na língua alemã. Em 1323 é enviado a Colônia como diretor do Studium Generale; ensina teologia, faz pregações ao povo e dedica-se à produção intelectual. Em 1326 tem início um processo inquisitorial contra Eckhart, por supostas doutrinas heréticas. Foi designada uma comissão que seleciona 120 proposições de Eckhart, tiradas do livro Da Divina Consolação, das obras latinas e dos sermões em alemão. Ele protesta contra este método de selecionar frases dentro de uma imensa obra, tirando-as do contexto em que foram escritas e pede o privilégio de isenção conseguido por dominicanos e franciscanos, que era o de ser julgado pela Sé Apostólica ou pela Universidade de Paris. Termina sendo julgado em Avignon, onde estava o Papa, e antes de se dirigir para lá, no dia 13 de fevereiro de 1327, diante de todo o povo, faz a seguinte profissão de ortodoxia, ou seja, afirma concordar com as regras e preceitos da Igreja: “Eu, Meste Eckhart, doutor na sagrada teologia, protesto diante de todas as coisas, tomando a Deus como testemunha, que eu sempre reprovei todo erro sobre a fé e toda corrupção dos costumes, tanto quanto pude, já que tais erros seriam e são contrários à minha condição de mestre e contrários também à minha Ordem. Se, portanto, se encontrar alguma proposição errônea em fé e moral que eu tenha por acaso escrito, dito ou pregado, em privado em público, em qualquer tempo ou lugar, direta ou indiretamente, expondo uma doutrina menos sã e até falsa, então eu a revoco aqui explícita e publicamente diante de todos e de cada um dos que aqui estão presentes, como não escrita ou não dita”. Logo após Eckhart segue para Avignon, a fim de acompanhar o julgamento de sua doutrina por uma comissão. As 120 proposições em que era acusado de heresia foram reduzidas para 28, e ele tentou explicar-se junto à comissão mas não conseguiu bons resultados, porque no dia 27 de março de 1329, com a Constituição In Agro Dominico, o papa João XXII condenou todas as 28 proposições de Eckhart. O texto da constituição começa considerando Eckhart um inimigo que "semeia abrolhos na seara do Senhor" e continua dizendo o seguinte: “Com dor comunicamos que, neste tempo, alguém das terras alemãs, Eckhart de nome, doutor e professor da Sagrada Escritura, da Ordem dos Pregadores, quis saber mais do que era necessário, em dissonância com a sensatez e com as diretrizes da fé, porque afastou seu ouvido da verdade e voltou-se às fabulações.” “Nós...expressamente condenamos e reprovamos os quinze primeiros artigos e os dois últimos como heréticos e os outros onze citados, como mal soantes, temerários e suspeitos de heresia, igualmente os livros e opúsculos do mesmo Eckhart que contenham os referidos artigos ou alguns deles”. Mestre Eckhart não assistiu à sua condenação, pois morre em abril de 1328, em Avignon, e o documento papal já o dá como morto. A retratação de Eckhart antes de sua morte pouco valeu à sua obra, pois um grande silêncio sobre ambos reinou entre os católicos por causa de sua condenação. Mas apesar disto seu pensamento influenciou muitos outros místicos, entre os quais Julian de Norwich, Teresa de Avila, São João da Cruz, Nicolau de Cusa e Hegel. E a partir do século XIX, com a descoberta dos seus manuscritos e o afrouxamento da perseguição por parte da Igreja sua obra foi sendo redescoberta e sua imagem foi se refazendo a ponto de hoje ele ser reconhecido e venerado como um dos mais legítimos e importantes representantes do misticismo cristão. (Essa biografia de Mestre Eckhart é um excerto daquela apresentada no livro "A Mística do Ser e de não Ter", coordenado por Leonardo Boff, com traduções de textos de Mestre Eckhart, editado pela Editora Vozes - Petropólis, 1983).

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    Thüringen, Alemanha

    Eckhart von Hochheim