Este livro é uma obra-prima. Chega a ser engraçado ver tantas mulheres defendendo avidamente que o feminismo não tem nada a ver com as ideias de Solanas, como que com medo de que os homens possam ter a "ideia errada" sobre o movimento.
Solanas não escreveu SCUM pensando no feminismo, nem que este livro se tornaria parte importante da revolucionária teoria radical. Solanas escreve com ódio, com um asco verdadeiro pela classe masculina, digerindo todas as experiências vividas e observadas com uma realidade que chega a ser cruel. Ela é violenta e pronta para matar. E ela tem o direito de sê-lo.
As feministas não precisam ser todas Solanas. Mas as que quiserem ser, estão cobertas de motivos. Valerie Solanas analisa a posição da mulher na sociedade de uma forma tão crua que choca até mesmo àquelas que têm plena consciência do quanto estamos ferradas. Ela inverte em sua utopia o sistema de gêneros, colocando o sexo feminino na função de exterminação sistemática de todos os homens. Por isso, a chamam de louca, de extremista, mas não é muito diferente do que a literatura masculina, em ramos respeitados como a psicanálise, faz. Solanas, sagaz, ao colocar o macho como incapaz de amar não está sendo muito diferente de Freud, dizendo que a mulher é um macho incompleto. Freud é gênio. Solanas, louca.
SCUM Manifesto não é ficção, mas deve ser lido nas entrelinhas. Valerie Solanas foi uma mulher extraordinária, sofrida, resistente neste mundo que só a fez enlouquecer. A conclusão do livro é, evidentemente, impraticável. Mas a reflexão que ele provoca, mesmo naquelas que acham um absurdo e perda de tempo, já é o suficiente para provar sua importância na história feminista.
Livro de cabeceira. Na dúvida, abro em qualquer página e me lembro: só a luta muda a vida.