Não posso começar essa resenha de outra forma que não seja dizendo que Gonçalo é um gênio da literatura. Transformar um Épico sobre uma viagem à Índia, dividido em cantos e estrofes, num tratado sobre a vida contemporânea é quase inimaginável; mas foi exatamente o que ele fez.
O subtitulo do livro "Melancolia contemporânea (um itinerário)" é perfeito, e diz muito mais do livro do que o título em si. Porque muito mais do que viajar até a Índia, o que Bloom faz é um percurso de vida. Ele busca, como buscamos todos, respostas, sabedoria, amor, algo que lhe traga paz ao mesmo tempo que o empurre para a vida. Ele sai de Portugal fugindo de uma situação trágica e acredita que na Índia, tão mística e antiga, encontrará o que em casa não conseguiu. Acompanhamos Bloom então durante sua jornada, esperando e torcendo que ele encontre a paz e a felicidade - e a cada estrofe percebendo que a vida não é bem assim. O que me restou do livro é que não há esse Éden que buscamos. Preocupamo-nos muito com o que é a vida, com a busca da felicidade, com grandes acontecimentos importantes, e acabamos paralisados de tanto pensar, não percebendo que a cada dia a vida passa, e somos nós que não damos peso ao que nos acontece.
Através de Bloom, Gonçalo traça genial e minuciosamente o itinerário que nós, maníacos e melancólicos "pós-modernos" vivemos. E tudo isso com uma escrita ao mesmo tempo crua, irônica, leve e acolhedora. Como esses quatro adjetivos podem representar uma mesma escrita? Só lendo Gonçalo para sentir.