Surrealismo: Rupturas Expressivas rompe, a princípio, com a tradicional forma do ensaio, utilizando um eu singular, ganhando, com isso, as possibilidades de aventura e de opinião que o indivíduo consegue ao explorar, solitário, terras e mares em que ninguém poderia ter ido por ele, e em que ninguém esteve, antes dele. Obra cheia de supresas, impossível de reduzir a umas quantas palavras, ela conduzirá o leitor a refletir sobre as novas possibilidades de aprender os códigos pictóricos e escritos; a perceber diferenças e, também, inesperadas semelhanças entre os sinais inventados pelo Homem para representar o mundo em que vive, como, por exemplo, os quadros comparativos entre os ideogramas chineses e os hieróglifos maias que o autor apresenta.
Surrealismo - Rupturas Expressivas
Eduardo Peñuela Cañizal
Um ensaio sobre a busca de significados na linguagem rompendo as normas da escrita.
Esta é uma resenha escrita de um desavisado entusiasta da arte para outro, que talvez tenha adquirido o livro pelo encanto da bela capa retratando a famosa pintura de Salvador Dalí, "Mujer con Cabeza de Rosas", trazendo o título "Surrealismo, Rupturas Expressivas", que a princípio não traz nenhum panorama muito objetivo da obra, fazendo o curioso leitor a ponderar tratar-se de uma obra sobre a história do movimento artístico referido neste título, ou talvez quem saberia um documentário ou compilado das principais obras icônicas deste estilo pós-guerra mundial. Este é um equívoco que os (talvez) nichados conhecedores do trabalho de semiótica e artes visuais do fundador da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) Eduardo Peñuela Cañizal, autor deste livro, com certeza se preservariam. Mas quantos aos ditos desavisados como eu, acabam se deparando com um material a princípio destoante das expectativas descritas no início desta resenha, mas que aos poucos consegue apontar algum norte da relação do título do livro com a proposta que o autor quer trazer à reflexão do leitor logo nas primeiras páginas. Desde já, deve ser advertido que este não é um livro recomendado para meros entusiastas da arte (mas JAMAIS proibido, eu mesmo não me queixo da experiência final). Este é um livro de conteúdo essencialmente acadêmico. Ressalto: essencialmente, mas não tecnicamente. Por ter sido escrito por um ex-professor e diretor da ECA-USP, é uma leitura apresentada no formato de ensaios compilados, recheados de profundas reflexões entrelaçadas em si mesmas sobre, a grossa descrição, possíveis mecanismos intuitivos de rompimentos das diversas normas arbitrárias de comunicação - tanto visuais quanto escritas - que o movimento artístico surrealista oferece afim de encontrar camadas de significados que a história da língua escrita e dos signos visuais mascararam no decorrer da evolução cultural da humanidade. Para vislumbrar esses mecanismos, o autor recorre desde análises de pictogramas de civilizações remotas e suas transformações mesopotâmicas, coincidências de significados em palavras distintas, decompostas sob a luz de fenômenos oníricos dos estudos de Freud ou da própria evolução etimológica de culturas distantes, entre muitos outros recursos que possam validar a perspectiva de que a linguagem moderna, com todos os seus itinerários de regras, pode oferecer somente uma camada engessada de interpretação, ou nas palavras do autor, "um mar de superfície aparentemente rasa, que esconde na vertical de suas profundezas, cardumes ocultos de significação". Dito tudo isso, é um livro que eu só recomendaria a um estudante acadêmico, cursando áreas como letras, semiótica, ou a arte em uma esfera mais íntima com o assunto abordado. Aos que, assim como eu, nunca tiveram antes um contato com um texto de um ensaio intelectual, talvez terá muita dificuldade. Mas se der todas as chances que o livro merece, terá colhido uma grande variedade de informações no mínimo interessantes sobre o funcionamento da linguagem e todas as possibilidades que, ainda nos dias de hoje, ainda estão por ser exploradas. Por último: um ponto que eu (na minha categoria de leitor já descrita anteriormente) considero extremamente negativo na experiência de leitura espontânea de um livro como esse, são as menções e parafraseamentos repentinos das referências bibliográficas ao longo das reflexões do autor, principalmente aquelas escritas em francês, que ora ele se dá ao trabalho de traduzí-las, ora não faz questão alguma de fazê-la quando julga desnecessária para sintetizar seu raciocínio. Isso obscurece a total compreensão do contexto de onde foram tiradas as referências, e portanto comprometendo uma parcela do entendimento do contexto final do que o autor que está discorrendo.
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