A verdadeira herança maldita deixada pela ditadura
A extrema-direita de Bolsonaro trata a Abertura Política como um ato de nobreza, um presente concedido pelos generais Geisel e Figueiredo para devolver a democracia ao povo. Mas a leitura deste depoimento, joga um balde de água fria nessa narrativa heróica. O ponto alto da obra é a desconstrução completa do que chamamos de "binômio Geisel-Figueiredo". Roberto Nogueira Médici expõe com todas as letras que a ascensão dessa dupla não representou uma continuidade, mas uma ruptura. Ele descreve a atuação de um grupo específico, muitas vezes apelidado de "Clube Inglês", que teria se infiltrado no governo para sequestrar an agenda nacional. Para quem acha que João Figueiredo foi apenas o último presidente do ciclo, o livro funciona como um alerta de que a matemática não mente. Figueiredo não caiu de paraquedas em 1979. Ele operou as alavancas do poder por 16 ANOS ININTERRUPTOS, a mesma narrativa utilizada hoje para culpar o PT sobre o atraso do Brasil. Figueiredo esteve primeiro comandando a Casa Militar sob Médici. Depois, chefiando o todo-poderoso SNI sob Geisel. E, finalmente, sentando na cadeira presidencial. A obra deixa claro que ele foi o arquiteto, e não o herdeiro, do desastre que viria a seguir. O relato carrega uma amargura visível ao tratar do arrependimento de Emílio Médici. A escolha de Geisel para a sucessão é retratada como o maior erro estratégico de sua vida. Essa passagem de bastão permitiu que o grupo sucessor reescrevesse a história, jogando toda a responsabilidade dos "Anos de Chumbo" nas costas de Médici para posarem de salvadores da pátria enquanto desmantelavam a economia. Ao fechar o livro, fica a sensação de que a "Década Perdida" dos anos 80 não foi um acidente de percurso. Foi o preço cobrado pela manutenção desse grupo no poder. Geisel e Figueiredo, na visão apresentada por Roberto, atrasaram a abertura e manipularam a transição para protegerem a si mesmos, entregando ao final um país quebrado e endividado. É uma leitura obrigatória para quem quer parar de culpar o "regime militar" como um todo e começar a dar nome aos bois de quem realmente afundou o barco.
