Morar em um traço modernista.
Ler As Construções de Brasília é, para mim, mais do que estudar arquitetura, é ler o lugar onde vivo. Há vinte anos moro em Brasília e cada página desse livro ecoa paisagens que fazem parte da minha rotina. Brasília não é apenas uma cidade, é uma ideia concretada. É o gesto ousado de Oscar Niemeyer transformado em curva, em concreto branco, em horizonte ampliado. É também o traçado urbano visionário de Lúcio Costa, que desenhou uma cidade como quem desenha um símbolo. O livro percorre monumentos, eixos, escalas, vazios e perspectivas que, para muitos, são cartões-postais mas para mim são cenário de vida real. Já caminhei inúmeras vezes pela Esplanada sob o céu absurdamente aberto, já atravessei superquadras ao entardecer, já observei a Catedral mudar de cor conforme a luz do dia. Morar aqui é conviver diariamente com a arquitetura como experiência sensorial. Brasília ensina proporção. Ensina silêncio. Ensina monumentalidade. Ensina também contraste entre o ideal modernista e a cidade viva, pulsante, humana. Costumo dizer, com convicção e afeto: todo arquiteto deveria morar ao menos por um tempo nesse universo. Viver Brasília é compreender o modernismo não como capítulo de livro, mas como espaço habitado. É perceber como a escala influencia o comportamento, como o vazio comunica, como a forma molda a experiência. As Construções de Brasília organiza, documenta e analisa mas, para mim, ele também confirma algo íntimo: que morar aqui é participar, diariamente, de uma das experiências arquitetônicas mais ousadas do século XX. E depois de vinte anos, ainda me pego olhando para uma curva de Niemeyer como se fosse a primeira vez.
