Enquanto agonizo é um romance ambientado no sul dos Estados Unidos e tem como tema a odisseia de uma família pelo interior do Mississipi para enterrar sua matriarca. Cada um deles tem seus próprios motivos e explicações e, apesar de nenhum se comunicar bem com o outro, todos se lançam à meta final, uns com mais intensidade, outros com menos. O estilo peculiar e inventivo de Faulkner envolve o leitor, deixando-o a par dos mais íntimos pensamentos e sentimentos de cada personagem.
Enquanto agonizo -
William Faulkner
A Casa Estranha do Ser: Faulkner e o olhar da Dasein
Publicado em 1930, Enquanto Agonizo foi escrito por William Faulkner em apenas seis semanas, durante os turnos noturnos em que trabalhava como bombeiro na Universidade do Mississippi. É difícil acreditar que um livro tão denso, radical e inovador tenha nascido de forma tão urgente. Mas talvez isso diga algo essencial sobre a obra: ela é um mergulho direto na matéria bruta da existência. O romance acompanha a jornada da família Bundren pelo interior do Mississippi rural para enterrar Addie, a matriarca. A travessia, feita com o caixão na carroça e marcada por desastres, revela muito mais do que a paisagem sulista: ela descortina os conflitos íntimos, afetivos e existenciais de cada personagem. A estrutura é composta por monólogos alternados, em que os membros da família e alguns moradores da região narram suas perspectivas, construindo um mosaico psicológico e poético da experiência humana. Faulkner usa o fluxo de consciência com radicalidade, fazendo com que pensamento e linguagem se confundam, especialmente nos capítulos de Darl, cuja percepção distorcida do real conduz o leitor ao limite entre a razão e delírio. Essa é uma família onde o amor não é incondicional, e cada filho encarna uma forma de resposta à ausência: Jewel age, Darl pensa. Jewel sente com o corpo, Darl se afoga nas palavras. Cash ama com gestos e entrega. Dewey Dell carrega o desejo, a culpa e a solidão de um trauma inominável. Vandarman fantasia. E Anse, figura central na tragédia, representa o poder da impotência: um homem que manipula com sua passividade, que se vitimiza para mover os outros, sempre escapando da responsabilidade. Addie Bundren está longe de ser a mãe idealizada. Ela é uma mulher dura, que preferia castigar do que ensinar, que rejeita a linguagem e não acredita no casamento como destino. Mesmo assim, perto da morte, seus filhos mostram uma lealdade que não vem do afeto fácil, mas de algo mais profundo, instintivo e talvez, à sua maneira, amoroso. A forma do romance reforça essa profundidade. Faulkner alterna vozes internas em fluxo de consciência, borrando os limites entre pensamento e linguagem. Mas nos capítulos finais, algo muda: os títulos continuam com nomes de personagens, mas a narrativa passa à terceira pessoa. A mente se cala, a loucura é trancada num lugar, e o luto vira parte da rotina. É como se, no fim, tudo que conheciam fosse apagado. E eu confesso que quanto mais avançava, mais me impressionava. É a literatura como saber antes do saber. Por isso, escritores como Dostoiévski e Faulkner são tão potentes: eles não apenas contam histórias, eles experimentam formas de consciência ainda não formalizadas pelo discurso científico. Em Faulkner, essa consciência aparece de modo radicalmente existencial. Embora Ser e Tempo, de Heidegger, tenha sido publicado alguns anos antes, o romance de Faulkner realiza, no plano da ficção, uma exploração estética e intuitiva de temas que só mais tarde ganhariam formulação sistemática na filosofia fenomenológica e nos estudos da existência em Sartre e Merleau-Ponty. Em muitos momentos os personagens mergulham em questionamentos sobre a sua própria existência. Como no momento em que Darl associa o ato de dormir ao esvaziamento do ser: “Em quarto estranho é preciso criar em nós mesmos o vazio, para poder dormir. E antes de se ficar vazio para o sono, o que é que somos, afinal?” E quanto a este dilema existencial da única filha, Dewey Dell: “Se eu pudesse apenas sentir, seria diferente, porque eu não estaria sozinha.” E neste momento em que Addie, a mãe, divaga e sequer consegue preencher com palavras as lacunas que sente no mundo: “As palavras não significam nada. Palavras como amor, como pecado, como salvação… palavras que servem só para preencher o vazio entre uma pessoa e outra.” O ser, no universo de Faulkner, não é dado: ele é tensionado, encarnado, atravessado por culpa, desejo, tempo e linguagem. A interioridade, nesse romance, não é um refúgio, mas um campo de batalha. Aqui, não se trata apenas de um drama familiar, mas da exposição nua e crua do ser em sua instabilidade. Em Enquanto Agonizo, a existência é fragmentada, e o amor, se existe, só sobrevive porque resiste. O que me deixa fascinada é que esse modo de representar a família e seus dilemas, assemelha-se a Dasein, onde para Heiddger a família não é uma essência, mas uma forma contingente de coexistência (Mitsein), em que os laços são tensionados por expectativa, corpo, linguagem, solidão. Faulkner começa o romance nos dando acesso às entranhas da alma dos seus personagens, e termina nos expulsando delas. O leitor, assim como os personagens, é lançado de volta ao mundo bruto, sem mediação. Se muito antes dessa obra eu já era fã, tendo eu a abordagem fenomenológica como minha base técnica e de vida, imagina agora como estou ainda mais apaixonada pela escrita desse homem. E olha que eu nem acreditava que isso seria possível com um livro tão curto! Essa é a maestria do Faulkner!
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