Rachel Menezes dedicou-se a compreender como se organiza um dos segmentos mais intrigantes da organização contemporânea da morte ocidental moderna: os ?cuidados paliativos? hospitalares a pacientes em situação limite. Seu treinamento prévio como médica e como psicoterapeuta e a competência adquirida como antropóloga, que provou cabalmente nessa tese de doutoramento, permitem ? conjugadas ? uma percepção agudíssima dos desafios, fórmulas e estratégias com que alguns segmentos da Biomedicina enfrentam as contradições estruturais da ideologia moderna da pessoa. Comprometidos fundamentalmente com a extensão e a ?qualidade? da vida física, corporal, humana, não podem esses saberes esquecer que a experiência hospitalar impede e violenta a ?satisfação? sensorial, afetiva e cognitiva intrínseca a nossa representação de uma ?boa vida?. Introjetam assim esses segmentos parte das críticas à ?desumanização? e hiperespecialização da medicina e avançam no sentido de produzir uma ?boa morte?, ela própria controlada pelo onisciente e onipresente olhar médico. Isso não se faz sem uma renúncia à ambição universalista de controle absoluto dos processos vitais. Esse reconhecimento de um insuperável limite à razão está certamente relacionado com o clima de intensa ?religiosidade? que cerca os fenômenos aqui descritos ? mesmo que não explicitamente confessionais. A presença de um sentimento religioso nesse universo confirma termos em mãos um nódulo revelador dos planos mais íntimos de nossa cosmologia: pessoa, dor, natureza, morte, prazer, responsabilidade, imortalidade, reverência, paz, perdão, resgate, alegria. Vida, enfim, de que nos fala a ?boa morte?.
Em busca da boa morte - Antropologia dos Cuidados Paliativos
RACHEL AISENGART MENEZES
Garamond
2004
225 páginas
7h 30m
ISBN-10: 8576170493
Português Brasileiro
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