Ajudar os outros. O prazer que esse gesto proporciona, a necessidade de praticá-lo, a cadeia de reações que isso provoca. Há quase mil anos, maimônides, filósofo e médico conhecido como Rambam por seus seguidores, analisou questões sobre doaçãoo, justiça e obrigação. Naquele momento, surgiu sua eterna Escada da Caridade. Mais do que um hábito ensinado, a doação é parte integrante e essencial do amor – surge de um impulso inato. A prática, porém, pode e precisa ser incentivada pelo conhecimento. E é isso o que esta obra oferece: uma abordagem delicionsamente inteligente, gentil e persuasiva sobre os méritos e as incertezas da caridade. Tendo Rambam como guia, Julie Salamon explora o contemporâneo da doação e inspira os leitores a pôr os pés na Escada e desbravá-la. “Com clareza e sensibilidade, Julie Salamon oferece um guia necessário para qualquer pessoa que acredite no nobre preceito de que doar é compartilhar.” Elie Wiesel, Prêmio Nobel da Paz. (Retirado do livro)
A escada de Rambam - Uma reflexão sobre a generosidade e seus diferentes estágios
Julie Salamon
MUITO BOM: mesmo para quem não se interessa pelo tema, o livro traz diversas histórias edificantes sobre como a generosidade pode mudar vidas e mesmo salvá-las
Lido entre 08 e 14/03/2021. Quem foi Rambam, um completo desconhecido para mim até topar com o livro de Julie Salamon, redatora do New York Times, também com passagem pelo Wall Street Journal? Não para Elie Wiesel, Prêmio Nobel da Paz de 1986, autor de A Noite, livro onde narra os horrores dos campos de concentração na Segunda Guerra Mundial e sabe muito bem o que é generosidade, melhor ainda, o que representa a ausência dela, que sentiu na pele. Sobre a autora Wiesel diz que com esse livro ela oferece ao leitor um guia necessário para qualquer pessoa que acredite no nobre preceito de que doar é compartilhar. É com isso que tem a ver Rambam, como o médico e filósofo Maimônides (1138-1204) era conhecido entre os estudiosos hebreus. Não se trata de uma biografia do teólogo judeu: o livro de Salamon é uma meditação acerca da generosidade e suas diferentes etapas, ou degraus, como a via Maimônides. A autora retira o essencial do pensamento do sábio judeu e o aplica à sociedade norte-americana, talvez a mais generosa do mundo. É o que apontam diversas pesquisas citadas na obra e inúmeros exemplos de grandes doadores do país, caso do casal Bill e Melinda Gates, entre outros. Americanos, como outros cidadãos, fazem doações que não são apenas em dinheiro, também através de diversos tipos de voluntariado e até mesmo doação de sangue etc., quer dizer, generosidade em suas múltiplas formas. Mas o que torna os EUA um país exemplar nesse ponto? Razões que a autora enumera: a ética protestante, os ensinamentos judaicos, a influência católica, o capitalismo e sua ênfase sobre a realização pessoal, até mesmo algo inerente à democracia. Salamon mesma participava (o livro é de 2003) de uma associação que cuidava de desabrigados e volta e meia ajudava alguém na rua. Mesmo que o leitor não esteja envolvido em atividades beneficentes (eu não estou), esse livro pode ser uma leitura interessante porque traz inúmeras histórias de pessoas praticantes de generosidade e igualmente relatos sobre os que a receberam e o que isso significou para ambos os lados, doador e beneficiado. Pobres, pessoas em situação vulnerável, moradores de rua, bêbados, drogados etc. estão entre os que receberam ajuda e mudaram de vida ou não. Do outro lado, quase sempre milionários e gente rica a ajudar, mas também pessoas comuns, a classe média enfim. Ao lado disso, aqui e ali, pequenos dados biográficos e informações sobre a filosofia de Maimônides são apresentados ao leitor, sem o que a leitura não seria tão interessante. E quais são as etapas da generosidade, os degraus da escada de Rambam? Adaptados ao mundo de hoje, eles vão numa escala de 1 a 8: relutância, proporção, solicitação, vergonha, limites, corrupção, anonimato e responsabilidade. Estão no degrau mais baixo da escada da generosidade aqueles que dão esmolas com o rosto carrancudo (relutância). No segundo degrau (proporção) está quem doa menos do que seria apropriado mas o faz sem carrancas. No terceiro degrau se situa aquele que ajuda alguém só depois que ele lhe pede (solicitação). No quarto degrau (vergonha) está quem ajuda um pedinte antes que ele lhe peça algo (evitando assim que o necessitado se envergonhe de pedir). O quinto degrau é o caso em que o necessitado sabe de quem está recebendo mas o doador não sabe a quem está doando (o ato tem, pois, limites). No sexto degrau (corrupção) está aquele que sabe a quem está doando, enquanto que o necessitado não sabe de quem está recebendo (quando se desconfia que a pessoa encarregada de lidar com as doações não está se comportando como deveria, desvia dinheiro, é corrupta, procede-se desse modo). No sétimo degrau, quase perto do doador perfeito está o que dá esmolas aos pobres sem querer saber a quem está doando e de uma maneira que os necessitados não ficam sabendo quem fez a doação (anonimato). O último degrau da escada de Rambam (responsabilidade) é aquele em que alguém ergue pela mão o sujeito reduzido à pobreza, fazendo-lhe um empréstimo, uma doação, entrando em uma sociedade com ele ou arrumando-lhe trabalho, de modo que ele se levante e não precise continuar mendigando. É mais ou menos igual àquilo que conhecemos como a velha lição de que para um necessitado é mais importante que lhe ensinemos a pescar do que eventualmente doar-lhe alguns peixes. É isso e mais um tanto. Mesmo não me interessando profundamente pelo assunto nem me achando uma pessoa muito generosa, gostei de conhecer, através de A Escada de Rambam, as ideias de Maimônides sobre compartilhar. Também apreciei ler sobre os inúmeros exemplos de pessoas generosas e instituições sérias que tornam o mundo menos cruel para os necessitados, os vulneráveis, os menos favorecidos, os pobres, enfim. Alguns trechos do livro não são apenas edificantes, também são comoventes...
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