“A Restauração da Horas” chegou em minhas mãos num momento que eu imaginava não ser oportuno. No início, relutei em iniciar a leitura. Eu já havia começado “Os Irmãos Karamázov” e, como nunca tinha lido dois livros ao mesmo tempo, estava receoso de me embaralhar.
À primeira vista, a obra de Paul Harding pode enganar os olhos. São apenas 150 páginas. Mas, apesar de pequeno, o título do prêmio Pulitzer na categoria ficção indicava um presságio de que o conteúdo era gigante.
O Livro conta a história de Geoerge Crosby, um metódico relojoeiro que está morrendo aos poucos em um hospital improvisado dentro de sua casa. Sofrendo com um câncer e insuficiência renal, George passa então os últimos dias de sua vida alucinando e recordando passagens de sua infância.
Muitas de suas memórias estão ligadas a seu pai Howard, que, após um incidente marcante num ataque de epilepsia, abandonou a família, deixando um buraco na existência de George.
A obra foi escrita em um formato não-linear e muitas vezes pode confundir o leitor. Ora o narrador conta a história de George atual, ora volta no tempo, ora pula para a vida de Howard ou migra para primeira pessoa, se transformando nos próprios personagens.
Todo esses fatores somados à escrita quase que poética, detalhista ao extremo e com poucos diálogos podem causar certa desorientação temporal. É preciso atenção e calma para seguir até a última página. Apesar de curto, o romance não é daqueles que se engole em uma ou duas noites.
“A Restauração das Horas” fala sobre pais, filhos, família e, principalmente, o tempo. Em diversas passagens, o autor detalha como funcionam os relógios, peça por peça, em uma alusão ao tempo universal e as amarras que nos prendem a esse mecanismo.
Uma leitura muito complicada, ainda mais quando você está lendo Dostoiévski ao mesmo tempo. Mas, acima de tudo, gratificante.