A onipresença do material
Eu sempre ouvi falar que as obras do Dickens eram muito interessantes enquanto comentários da sociedade inglesa de sua época e críticas relativas a questões de classe, e de fato, são aspectos sempre presentes nesse livro. Eu me surpreendi, no entanto, com como Dickens traz essas questões para a esfera "micro", para a esfera da intimidade: é muito interessante observar, ao longo de todo o livro e por quase todas as relações interpessoais, como o dinheiro tudo atravessa. Desde malfazejos até pessoas bem-intencionadas, de rancores a afetos, o material é sempre parte da equação, e para além das manifestações mais óbvias (como quando as pessoas mudam de comportamento quando Pip se torna rico) isso pode observar em quase toda troca, mesmo quando não é verbalizado, e mesmo quando os sentimentos e as intenções são as melhores possíveis. O prisioneiro que é beneficiado por Pip já no início do livro, ao se sentir em débito com a criança, entende como único meio de compensação o material. Apesar de sempre ter sido criado e amado incondicionalmente por Joe, Pip sente um senso sincero de dever e lealdade muito mais urgente em relação a Provis, com quem não tinha qualquer vínculo. Estella obviamente sente o mesmo senso de dever em relação a Miss Harvisham, a quem atribuía o direito irrestrito de ditar seu destino e sua personalidade em compensação por toda provisão que lhe foi concedida por toda a sua vida. Em minha opinião, o ponto de Dickens é que dinheiro e sentimento são duas moedas facilmente conversíveis entre si, um fato que muitos pecam por ignorar. O único personagem que parece reconhecer essa realidade é Wemmick, o mais interessante do livro na minha opinião. Ao reconhecer imediatamente o aspecto patrimonial de cada situação, Wemmick demarca rigidamente os dois lados da sua vida, o que vai ser ditado pelo dinheiro e pela praticidade, e o que será ditado por seu coração, e por isso é provavelmente o personagem mais feliz da história.









