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    Tudo o que tenho levo comigo -

    Herta Müller

    Companhia das Letras
    2011
    304 páginas
    10h 8m
    ISBN-13: 9788535918489
    Português Brasileiro
    3.8
    227 avaliações
    Leram313Lendo34Querem713Relendo3Abandonos29Resenhas28
    Favoritos21Desejados713Avaliaram227

    Neste romance, a vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2009 narra um episódio pouco conhecido da história recente: a perseguição de Stálin às minorias alemãs na Romênia, enviadas a campos de trabalhos forçados sob a acusação de haver colaborado com Hitler. Fim da guerra, 1945. Para a minoria alemã na Romênia é o início de um período de horror e silêncio. Nos cinco anos seguintes, por volta de 30 mil saxões residentes na Transilvânia foram deportados para campos de trabalhos forçados. Segundo Stálin, os povos de origem alemã deveriam pagar pelos crimes da guerra e trabalhar na reconstrução da União Soviética. Os campos caracterizaram-se por condições desumanas e insalubres, e os ex-internos preferiram esquecer o que aconteceu ali. Parte dessa minoria alemã, Herta Müller tomou o relato de um amigo, o poeta Oscar Pastior, como base para este romance sobre a dura experiência nos campos. O projeto que deveria ser realizado a quatro mãos foi interrompido com a morte de Pastior, e Müller o assumiu sozinha. O resultado é essa narrativa dolorosa, construída com uma escrita altamente poética, seca e pungente. Trata-se da história de Leo Auberg, um jovem de dezessete anos, gay, que é internado num campo soviético. Ali ele convive com a fome, trabalhos forçados, doenças, solidão e morte. Cinco anos depois, Leo volta para casa, mas percebe que tal retorno é impossível.

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    Aguinaldo Medici Severino picture
    Aguinaldo Medici Severino19/06/2013Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    tudo o que tenho levo comigo

    Só "É isso um homem?", de Primo Levi, pode ser comparado com "Tudo o que tenho levo comigo". Nem "Arquipélago Gulag", de Alexander Soljenitsin, que li quando era um aprendiz de trotskista, décadas atrás, é tão forte e poderoso (e nem é tão bem escrito). Se Levi fala dos horrores nos campos de concentração nazistas, Herta Müller, a exemplo de Soljenitsin, descreve os campos de trabalho na URSS, no pós segunda grande guerra. A exemplo de seu personagem, Leo Auberg, a mãe de Herta Müller foi uma das pessoas que pagaram uma cota de cinco anos de trabalhos forçados nos campos soviéticos. E a exemplo de toda sociedade romena as duas nunca falaram abertamente sobre o assunto, considerado tabu, e que deveria ser esquecido. Mas não por ela, que publicou esse livro em 2009 (no ano em que recebeu o prêmio Nobel). O livro foi concebido e trabalhado a quatro mãos, entre ela e um poeta romeno, Oskar Pastior, que também trabalhou nos campos, mas que morreu antes dos manuscritos alcançarem a forma de livro. Trata-se de algo singular. Não dá para dizer que é um livro maravilhoso, pois o que se discute (ficcionalmente) nele é tão terrível, tão angustiante, tão desagradável e medonho, que só mesmo o gênio de Herta Müller alcança permitir que nós o apreciemos como é devido (e necessário, cabe dizer). Herta Müller dá voz a um personagem já idoso, com quase ointenta anos, que relembra os anos de sua juventude, dos dezessete aos vinte e dois, quando foi deportado de sua Romênia natal para campos de trabalho forçado soviéticos. Todos os romenos descendentes de alemães, com idade entre 17 e 45 anos, deveriam contribuir para a reconstrução da URSS. Leo Augberg faz registros de seu dia a dia, conta detalhes absurdos da burocracia, canta a eterna luta contra a fome, a estupidificação e a morte, a ironia perversa daquilo tudo. Como num outro livro de Levi ("A tabela periódica") há um olhar científico sobre os materiais encontrados no campo, numa espécie de antropologia mineral: o cimento, o carvão, a cal, a escória de alto forno, o piche, as cinzas e o óleo convivem com os homens e mulheres dos campos. O narrador de Herta Müller fala também de zootecnia e botânica (para descobrir as coisas comestíveis do lugar), de psicologia e política (ferramentas de sobrevivência num lugar inóspito), teoria dos jogos (que dá conta do acaso nas possibilidades de viver e morrer). Eles têm nome, mas seus nomes como que não pertencem mais a eles, e sim a personagens de uma comédia macabra. A fome, o tédio, a morte e o medo dominam seus atos e pensamentos. Há cenas incríveis nesse livro. Difícil não se encantar com as imagens da mulher que se afoga num poço de cal; da echarpe de seda que é trocada por 273 batatas; do homem que rouba a sopa de sua mulher; das cores da vegetação que cerca o campo; das contínuas trocas de fatias de pão entre os internos; da mulher que tem um retardo mental mas parece arguta. Há frases curtas no livro, sintéticas e densas, que fazem o leitor parar e refletir: "O tédio é a paciência do medo"; "Cada turno de trabalho é uma obra de arte"; "Se você morrer, economizará lugar lá em casa". O livro segue pelos cinco anos de internação, até a volta de Leo para a Romênia. O mais incrível é que ao voltar para casa os deportados descobriam que voltavam para um país dominado pelo comunismo, onde a repressão política e controle social acrescentavam novas camadas de horror à suas vidas. Leo é homossexual, o que torna sua vida sob tal regime ainda mais arriscada. Não há interlocutor possível. Os antigos colegas de campo se evitam mutuamente. Pais e filhos se recusam a debater o assunto. A vergonha (que não existia nos campos, onde tudo era partilhado) os consome. O modelo stalinista de civilização é mesmo uma coisa doente, podre, assustadora e cruel. E é terrível saber que há aqueles que ainda hoje, 2013, ache que é este o modelo a ser imposto aos brasileiros. Ao invés de ler livros infantis e contos de fada para seus filhos, "Tudo o que tenho levo comigo" é que deveria ser lido por todo pai consciente deste país. De certos sonhos e da escravidão mental voluntária não se acorda nunca. [início: 21/05/2013 - fim: 28/05/2013] "Tudo o que tenho levo comigo", Herta Müller, tradução de Carola Saavedra, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm., 298 págs., ISBN: 978-85-359-1848-9 [edição original: Atemschaukel (München: Hanser) 2009]

    16 curtidas

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    Herta Müller

    Herta Müller é uma escritora, poetisa e ensaísta alemã nascida na Romênia. Destaca-se pelos seus relatos acerca das duríssimas condições de vida na Romênia sob o regime político comunista de Nicolae Ceauşescu, vividas em sua juventude quando foi perseguida pelo governo ao recusar-se a colaborar com o serviço secreto. Como resultado, Hertha exilou-se na Alemanha, local onde construiu sua carreira literária (ela escreve em alemão). Foi casada com o escritor Richard Wagner. Em 2009, foi agraciada com o Nobel de Literatura por, "com a densidade da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retratar o universo dos desapossados".

    28 Livros
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    Timiș, Romênia

    Herta Müller